Cadê você, Bernadette? – Maria Semple

Cadê você, Bernadette? – Maria Semple

Los Angeles, final dos anos oitenta e início dos noventa: Bernadette Fox é uma arquiteta original e promissora que recebe uma badalada bolsa MacArthur. Seattle, duas décadas depois: casada e mãe de uma adolescente, a Bernadette Fox de meia-idade é uma sociopata que aparentemente não dá a mínima para a arquitetura. É evidente que algo terrível aconteceu no intervalo entre um ponto e outro. Quem entrega o segredo é a filha de Bernadette, Bee.

Bee encarna um ideal improvável: é prestativa, diligente, inventiva — “puro deleite” é a expressão que seu professor usa para descrevê-la. Como prêmio por seus boletins escolares impecáveis, Bee é autorizada a pedir qualquer coisa aos pais. Para desespero de Bernadette, o que a garota mais quer é viajar com a família para a Antártida. Depois de uma série de mal-entendidos principiados por seu humor oscilante — fruto da angústia de se imaginar confinada em um navio —, Bernadette desaparece. Bee, inconformada com o sumiço da mãe, reúne documentos que tenham uma relação direta ou indireta com os últimos dias que Bernadette foi vista em Seattle. Mais do que um retrato de uma situação imediata, Bee consegue alcançar um passado nebuloso.

É aqui que entra a característica mais marcante de Cadê você, Bernadette?: sua estrutura fragmentada e a forma de relato que foge, tanto quanto possível, da usual. A história é contada através de inúmeros e-mails; de documentos do FBI; de um artigo de revista que detalha a fugaz atuação de Bernadette como arquiteta; de uma descrição rápida de um atendimento no pronto-socorro; de relatórios médicos; da transcrição, com comentários espirituosos, de uma palestra do TED; de conversas em chats; de cartas extensas; de bilhetes rápidos.

Essa fuga dos padrões não é inédita. Em determinado ponto de Tremor, Jonathan Franzen acrescenta um trecho curto construído em linguagem de programação. Ali Smith introduz a poesia em Por acaso, moldando um capítulo a partir de versos constrangedoramente ruins que um homem em plena crise de meia-idade escreve para sua jovem amante. Jonathan Coe insere uma espécie de artigo acadêmico bastante acessível em seu romance A terrível intimidade de Maxwell Sim. Já A visita cruel do tempo, livro que deu a Jennifer Egan o Pulitzer de 2011, apresenta um capítulo estruturado como uma apresentação de PowerPoint.

Maria Semple apenas amplia as possibilidades do romance moderno. A narrativa usual, que aqui segue o olhar em primeira pessoa de Bee, ocupa bem menos espaço do que o material que a própria garota reúne — e de certo modo está lá para preencher lacunas e unir um documento a outro. Isso não quer dizer que Sample sacrifique o tom literário em detrimento da isenção que alguns escritos — como os relatórios de um agente do FBI e de uma médica — poderiam exigir. A linguagem típica da narrativa de ficção está presente em todos os cantos, e o resultado nem sempre é convincente. Cartas e e-mails trocados entre os personagens exibem uma extensa descrição de detalhes, transcrições de diálogos e alusões a pequenos movimentos como coçar o queixo ou erguer o braço. Nada disso é plausível, especialmente quando se leva em conta a ligeira e descomplicada comunicação por meios eletrônicos. Em nome da legibilidade, Sample não hesita em sacrificar a verossimilhança.

Tudo se ampara na pós-modernidade, o que fica visível na simbiose entre forma e conteúdo. Cadê você, Bernadette? é um livro construído com alguma liberdade, sem linearidade óbvia e a partir de inúmeras vozes narrativas; seus documentos e relatos expõem os dilemas, grandes e pequenos, da complicada vida moderna. Bernadette não gosta de sair de casa (uma vez que isso significa encontrar pessoas), de modo que contrata uma assistente virtual na Índia. Bee está matriculada em uma escola “onde a compaixão, o estudo e a conectitude [sic] global se juntam para formar cidadãos dotados de uma mente cívica para um planeta diverso e sustentável”. O trânsito caótico é alvo de críticas inspiradas. Elgin, marido de Bernadette, trabalha em um projeto secreto na Microsoft — o que dá à autora a oportunidade perfeita para falar dos prós e contras da tecnologia.

Ao descrever certa frivolidade da vida moderna, Sample paira num meio-termo entre essa mesma frivolidade e uma tímida crítica da sociedade de consumo. Quando ainda era uma arquiteta promissora, a visão de Bernadette estava voltada para a sustentabilidade — suas casas eram construídas com materiais baratos que estivessem à disposição. Todas as referências à Microsoft são aparentemente ambíguas, mas, por trás do tom bem-humorado com que descreve as máquinas de doces e os imensos e modernos prédios, Sample deixa claro que a empresa de Bill Gates, como todas as grandes corporações, 1. consome as energias dos funcionários 2. força equipes inteiras a um estado de desconfiança e vigilância permanente 3. cria tensões e insegurança com boatos de demissões em massa 4. não liga a mínima para qualquer coisa que não seja o lucro imediato e gigantesco.

O que surge em Cadê você, Bernadette? é uma história que se olha por outro viés, como o lado avesso de uma costura. O livro começa com uma reunião de fragmentos aparentemente desconexos e que — também aparentemente — pouco têm a ver com aquele que é descrito como o drama central do livro. Pouco a pouco, no entanto, as coisas começam a fazer sentido. As peças vão se encaixando, e a história progride num ritmo de causa e efeito, ação e reação, até o esperado desfecho. Nas pequenas e grandes revelações que dispõe ao longo do livro, Sample consegue pegar o leitor desprevenido. A dose de imaginação é grande, e invariavelmente os acontecimentos descritos são mirabolantes.

Cadê você, Bernadette? é cômico, o que nem sempre é algo positivo. Aqui, infelizmente, o humor lembra mais uma série de televisão norte-americana — Maria Semple foi roteirista de algumas delas — do que o dramalhão escrachado e genial de Philip Roth em O Complexo de Portnoy. O grande erro de Sample é atribuir a Bernadette uma misantropia extrema, o que se manifesta num olhar preconceituoso e reacionário (ao tentar estacionar o carro, ela descreve como há, ao seu redor, “um mosaico fedorento e ameaçador de pedintes/ mendigos/ viciados/ marginais/”, o que em seguida é referido novamente como “caterva pútrida”). Nada disso faz sentido quando se leva em conta a antipatia da personagem pelo consumo desenfreado e irrefletido — só faz com que o lado outsider de Bernadette pareça mais uma fachada engraçadinha e nada convincente. Algo da força do livro se esvai em contradições semelhantes e em outras saídas fáceis, mas questionáveis.

Boas sacadas e uma estrutura original se misturam ao óbvio e ao plastificado, resultando num livro fortemente comprometido com a (e pela) ideia de entretenimento fácil — o que, convenhamos, nem sempre é ruim. Não chega a surpreender que Jonathan Franzen tenha dito que devorou o livro: Maria Sample sabe mesmo como criar uma narrativa viciante, o que, dentro de certos limites, é uma qualidade notável. É pouco provável que alguém desista de ler Cadê você, Bernadette? antes de ver onde é que aquilo vai dar. Sample encaixa cada peça do quebra-cabeça no lugar com uma graça e uma engenhosidade admiráveis. E isso não é pouco.

“Eu estava numa fase Abbey Road, porque tinha acabado de ler um livro sobre os últimos dias dos Beatles, e passei a maior parte do café contando o que aprendi para mamãe. Por exemplo, aquele medley no lado B foi concebido originalmente como uma série de músicas separadas. Foi ideia do Paul juntá-las no estúdio. Outra coisa é que Paul sabia exatamente o que estava rolando quando escreveu ‘Boy, you’re going to carry that weight’. É sobre John querendo acabar com os Beatles, e Paul não. Paul escreveu ‘Boy, you’re going to carry that weight’ como um recado direto para o John. Ele estava dizendo ‘Nós temos uma coisa boa aqui. Se esta banda acabar, a culpa será sua. Você tem certeza de que quer viver com esse peso?’. E a faixa instrumental do fim, na qual os Beatles se revezam na guitarra principal, e que traz o único solo de bateria de Ringo? Sabe quando parece que ela é uma espécie de despedida intencional e trágica para os fãs, e você fica imaginando os Beatles vestidos de hippies, tocando aquela última parte do Abbey Road, olhando uns pros outros, e pensa ‘Cara, eles devem ter chorado muito essa hora’? Bem, a faixa foi toda montada por Paul, no estúdio, depois do fim da banda, então isso não passa de sentimentalismo barato. (…)
Coloquei para tocar o CD de Abbey Road que eu tinha gravado esta manhã. Liguei apenas os alto-falantes da frente, já que a Picolé dormia no banco de trás.
A primeira música, claro, é ‘Come Together’. Começa com aquele ‘shoomp’ esquisito e depois entra o baixo. Mas, quando John começou a cantar ‘Here come old flat-top…’, descobri que mamãe sabia cantar a música inteira! Ela não apenas sabia toda a letra como também a cadência. Ela cantou todos os ‘all right!’ e “aww!’ e ‘yeaaaaah’. E continuou desse jeito, uma música atrás da outra. Quando ‘Maxwell’s Silver Hammer’ começou, ela disse, ‘Blé, eu sempre achei essa música muito infantil’. E mesmo assim, sabe o que ela fez? Cantou cada palavra dessa música também.
Apertei o pause. ‘Como você sabe as letras?’, perguntei.
Abbey Road‘, ela deu de ombros. ‘Sei lá como, eu simplesmente sei.’ Ela tirou o CD do pause.
Quando ‘Here Comes the Sun’ começou, sabe o que aconteceu? Não, o sol não saiu, mas mamãe se abriu como a luz do sol atrás de uma barreira de nuvens. Sabe quando, nas primeiras notas dessa música, alguma coisa na guitarra do George soa tão otimista? Era como mamãe cantando. Ela também transbordava otimismo. E acertou até mesmo as palmas fora do tempo durante o solo de guitarra. Quando a música chegou ao fim, ela pausou o CD.
‘Oh, Bee’, ela disse. ‘Essa música me faz lembrar de você’. Ela tinha lágrimas nos olhos.
‘Mamãe!’ É por isso que eu não quero que ela vá à dança do elefante do segundo ano. Porque as coisas mais aleatórias fazem com que ela fique assim, transbordando de amor.
‘Eu preciso que você saiba o quanto é difícil para mim às vezes.’ Mamãe segurou minha mão.
‘O que é difícil?’
‘A banalidade da vida’, ela disse. ‘Mas isso não vai me impedir de levá-la ao polo Sul.’
‘Nós não vamos ao polo Sul.’ ‘Eu sei. Faz cem graus abaixo de zero no polo Sul. Só cientistas vão ao polo Sul. Eu comecei a ler um daqueles livros.’
Soltei a minha mão da dela e apertei o play.”

10 Comentários Cadê você, Bernadette? – Maria Semple

  1. Adriana

    Putz…
    Esse eu passo…
    Como sempre, adorei a resenha, mas acho que a leitura não vai acrescentar muita coisa na minha vida…
    De qualquer forma, super agradeço!
    😉

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  2. Fabiana

    Comprei hoje!!
    Leitura leve, enredo bem amarrado e uma boa diversão é o que parece que vou encontrar!!

    Além da capa…adoro capas!!! E essa é lindaaaa!!!!

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  3. Jocelyn

    Depois de ler esta resenha já coloquei o livro na minha lista de novas aquisições literárias! Resenha sensacional!!!!

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  4. Eliana Lee

    Vim parar aqui após assistir a um dos vídeos do canal literário “O batom de Clarice”. Juliana tem razão: sua resenha é realmente ótima, bem construída e embasada. Fiquei com vontade de ler o livro, até adicionei-o em minha lista do Skoob. Curti demais o blog, foi bom conhecer 😉

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  5. Fernanda Santos

    Gostei muito da sua resenha. Bem escrita e estruturada. A forma que você sustenta sua opinião me passou veracidade. Parabéns!

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