Bonita Avenue – Peter Buwalda

Bonita Avenue – Peter Buwalda

O terreno das comparações pode ser um campo minado. Se o crítico não sabe bem onde pisa, arriscar paralelos e tentar rastrear possíveis influências tende a envolver algum risco. É fácil sacrificar o rigor em nome de uma analogia arbitrária, dando a impressão de que a análise é certeira e eficaz.

NBonita-Avenueão sendo uma entidade filantrópica, a editora faz de tudo para tornar seu livro um produto atraente. Não tem (e nem deveria ter) vergonha de aproveitar frases de efeito de críticas duvidosas. A contracapa da edição brasileira de Bonita Avenue traz os excertos de praxe, com destaque para as comparações entre Peter Buwalda e Philip Roth.

No geral, enredos que exploram a pornografia tendem a remeter ao autor de O Complexo de Portnoy, quando não ao livro em si, o que em geral se deve à parcialidade — à estupidez — que marca boa parte da recepção à obra de Roth.  A perversão pode até desempenhar um papel determinante em romances como O professor do desejo ou O teatro de Sabbath, mas funciona como o escoadouro de alguma deformação ou fraqueza dos protagonistas. Toda a personalidade dos personagens — David Kepesh e Mickey Sabbath, além do próprio Alexander Portnoy — é construída com cuidado quase obsessivo. Nada em Bonita Avenue, romance de estreia do holandês, sugere qualquer proximidade com a obstinação demonstrada por Roth ao modelar as emoções e o imaginário das suas criaturas.

Um jornalista do The Times acredita que Peter Buwalda é “a resposta holandesa a Jonathan Franzen”. Seria o homem tão genial a ponto de um país reivindicar um Franzen para chamar de seu? Além das sagas familiares retratadas em As correções e Liberdade, no geral escritas em uma prosa sem grandes atrativos, pouca coisa remete ao autor do recém-lançado Pureza. Buwalda é um tantinho mais sádico do que Franzen, posto que o norte-americano parece ter medo de encarar o horror de frente — suavizando a linguagem até o limite da piada fácil, controla a profundidade e a energia com que desce a um abismo, sempre agarrado aos cabos de segurança. Buwalda também foi comparado a Michel Houellebecq. Com exceção da atriz pornô que segura um livro do francês em uma cena de Bonita Avenue, nada liga um ao outro.

O desinteresse quase completo de Buwalda por tudo o que é externo ao núcleo praticamente impermeável dos personagens — e até mesmo por aquilo que os torna humanos — amplia a distância que o separa dos outros três. Franzen é conhecido por sua dedicação às questões ambientais e suas críticas à sociedade de consumo; Roth sonda a política norte-americana, a perseguição aos judeus e os dilemas enfrentados por um escritor, além dos horrores da decadência física; Houellebecq investiga o niilismo, as transformações na arte, as ameaças à democracia. Em Buwalda, por outro lado, todo tema maior parece meramente incidental, como que compondo um pano de fundo cujo objetivo é conferir à trama algum realismo superficial, mas nem por isso menos convincente — ou seja, seus grandes temas não constituem elementos de peso, que influenciam seus personagens ou são influenciados por eles. Ainda que um dos protagonistas de Bonita Avenue seja nomeado ministro, os desafios do cargo e a politicagem mal são mencionados no livro. Tudo está a serviço de uma cadeia peculiar — “eletrizante”, para usar um adjetivo que poderia aparecer na contracapa do livro — de acontecimentos.

Com ressalvas, é possível comparar Bonita Avenue a Tirza, de Arnon Grunberg, e não apenas porque os autores são conterrâneos — e a literatura holandesa contemporânea tem encontrado uma boa acolhida no Brasil —, mas porque certos dilemas familiares, em especial a relação entre pais e filhos, ganham destaque nos dois romances. O ruído dissonante e assustador — bem conhecido dos leitores de Tirza —, que cresce na medida em que a trama avança, pode ser ouvido facilmente em Bonita Avenue. Até mesmo a natureza da perturbação causada no leitor é semelhante. Grunberg, no entanto, dá preferência ao estilo indireto livre, recurso que Buwalda usa com menos frequência e com menos segurança.

Em Bonita Avenue, Siem Sigerius é o reitor da (fictícia) Universidade de Tubantia, em Enschede. É um personagem peculiar — Buwalda procura reforçar os contornos que tornam sua biografia interessante. Siem foi judoca e, depois de um acidente que o deixou preso à cama durante alguns meses, além de permanentemente fora do circuito de competições, descobriu um talento fora do comum para o raciocínio lógico. Durante boa parte de sua vida adulta, quase imediatamente após abandonar os tatames, Siem Sigerius foi um matemático de prestígio.

Siem não é o pai biológico de Joni (homenagem a Joni Mitchell) e Janis (Janis Joplin), filhas de sua segunda mulher. As duas garotas, porém, têm o seu sobrenome e o chamam de pai. Embora a relação entre os membros da família Sigerius pareça quase idílica, há, como em Tirza, algo estranho a emergir daí. “[O] que realmente sabemos uns sobre os outros?”, questiona Siem.

É Siem, o personagem mais carismático de Bonita Avenue, o responsável por fazer com que a estranheza emerja logo de saída. Nas primeiras páginas do livro, Aaron Bever, namorado de Joni, analisa as orelhas do sogro, que, segundo o rapaz, “as exibia como um símbolo de distinção, como prova de trabalho duro e virilidade”. Siem tinha “um par de orelhas que chamava a atenção; eram informes, pareciam um legume à dorê”. Bever conclui que “orelhas de couve-flor eram reservadas aos campeões”, de modo que uma pessoa “tinha de fazer por merecer orelhas como aquelas”. É uma abertura esquisita, mas funciona como um prenúncio do restante do livro.

A narrativa alterna três pontos de vista: o de Siem, o de Aaron e o de Joni. A voz de Joni vai pouco a pouco se alinhando à da jovem observada, nos outros capítulos, pelo padrasto e pelo namorado, mas não chega a convencer — a se encaixar perfeitamente na imagem da garota confiante e explosiva — em momento algum. Joni, como construída pelo autor, é o elo mais fraco do livro, onde tudo chega perto de vir abaixo. A despeito do passado turbulento, da audácia e do desembaraço da personagem, Buwalda, ao transferir seus traços para a primeira pessoa — ao contrário dos capítulos dos outros dois, narrados em terceira —, constrói uma Joni rasa e desinteressante.

A estrutura de Bonita Avenue, todavia, é ótima. Tudo começa num trem, com Aaron, instado por um encontro inesperado, rememorando a catástrofe da família Sigerius, na qual desempenha um papel incerto. O ato final do drama dos Sigerius se desenrola em dezembro de 2000, ainda que os acontecimentos decisivos datem de muito antes, talvez da época em que a família ainda vivia nos Estados Unidos. Daí o título do livro — de uma avenida na Califórnia onde, na década de 1990, a família Sigerius foi feliz.

Uma única cena pode resumir o ponto de partida dos principais conflitos do livro. Durante uma recepção na Universidade de Tubantia, já de volta à Holanda, Siem Sigerius é duplamente surpreendido. O irmão de sua primeira mulher aparece de surpresa no campus a fim de avisar que o filho biológico do agora importante reitor, um rapaz violento que assassinou um homem durante um acesso de raiva, estará livre da cadeia em breve. Ainda perturbado pela notícia, Sigerius avista Joni com um chapéu marrom que esconde seus cabelos loiros, o que o leva a relacionar a enteada a uma garota que publica fotos eróticas na internet. A garota das fotos é morena, motivo pelo qual Siem ainda não havia notado a semelhança. A partir daí, ele tenta descobrir como proteger a família e a carreira.

Apesar da cena e do que ela sugere — uma vez que parece apontar para um enredo simples de criação e dissolução de tensão, cujo ápice consistiria na revelação do mistério que agora cerca a figura de Joni —, Bonita Avenue vai evidenciando camadas cada vez mais perturbadoras. Um por um, os desdobramentos trazem novas evidências que só serão esclarecidas mais adiante, de modo que toda revelação contém em si outra revelação. O tempo vai e volta com o auxílio de lembranças e reminiscências. Cada cena, por mais acessória que pareça à primeira vista, pode ajudar a compor um quadro completo da situação. Nesse sentido, Bonita Avenue é como um bom romance policial.

A manipulação dos detalhes é notável, e a impressão de verossimilhança é, por conta da rápida exposição de cenas simples e domésticas, intensa. Da descrição de um quimono pendurado em um armário à de uma conversa familiar na mesa de jantar, tudo é programado para facilitar tanto o reconhecimento imediato como o avançar despretensioso da trama.

Peter Buwalda sabe bem como criar conexões de causa e efeito, ainda que isso não se estenda necessariamente às emoções dos personagens — como a condução do enredo permite ao leitor indagar os motivos que levam as pessoas a agir como agem, o esclarecimento de cada motivação e impulso esvaziaria boa parte da força do livro. Além disso, ou justamente por conta das informações que sonega, Buwalda manipula habilmente a tensão, mantendo o leitor interessado, quase obcecado, até o desfecho.

Boa parte do mote do livro vem de uma frase do matemático Godfrey Harold Hardy cultuada por Siem, que fala da “surpresa aliada à inevitabilidade”. Ainda que seja difícil prever o desfecho, tem-se a impressão de que ele não poderia ser diferente. Quase toda a carga dramática de Bonita Avenue reside no final violento (que talvez abuse um tantinho do mau gosto), em que o leitor finalmente percebe a dimensão da tragédia tão bem arquitetada por Peter Buwalda. Antes das últimas páginas, não é possível ter ideia da catástrofe que atinge a família Sigerius. Não por acaso, a cena sombria se desenrola na neve e no escuro, muito distante da agradável e ensolarada Califórnia.

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