Azul é a cor mais quente – Julie Maroh

Azul é a cor mais quente – Julie Maroh

1) A premissa da graphic novel que deu origem ao longa dirigido por Abdellatif Kechiche é relativamente simples. 

2) Julie Maroh narra uma história de amor entre duas garotas. Ambas são jovens, o que inevitavelmente desemboca na ideia de amadurecimento. Clémentine cursa o ensino médio; Emma é estudante de artes. Depois de trocarem um breve olhar em um lugar público — um olhar fugaz, mas que ainda assim fica gravado na memória —, esbarram uma na outra em um bar gay. Um bar do qual Emma parece frequentadora assídua, aliás, mas onde Clémentine entra movida por certa curiosidade. Desses encontros furtivos nasce uma amizade ambígua e carregada de interesse mútuo. “Não existe fronteira bem delimitada e imóvel entre a amizade e o desejo amoroso”, esclarece Valentin, colega e amigo de Cleméntine — frase que pode se revelar uma espécie de mote do livro. Estamos na década de noventa, em Lille, no norte da França. (País cuja extrema-direita, vale lembrar, reagiu de maneira feroz à recente aprovação do casamento igualitário e da adoção de crianças por casais do mesmo sexo).

3) Poderia ser só mais uma história de amor, e de fato é, como todos deveriam ser capazes de reconhecer e como Julie Maroh deixa claro. Mas o caso é que estamos falando de duas garotas e, por enquanto, sublinhar esse dado é tão doloroso quando necessário. Ainda que Clémentine e Emma, à medida que se conhecem e se gostam, atravessem conflitos e euforias comuns a qualquer relacionamento —  que, no seu caso, é especialmente conturbado em certos pontos — , as dificuldades ligadas à sua orientação começam a vir à tona: a) os pais de Clém reagem mal à descoberta de que a filha se relaciona com alguém do mesmo sexo, e suas colegas de escola, quando suspeitam do seu envolvimento com uma garota, tampouco acenam com sua aprovação; b) num café, homens sorriem maliciosos para a troca de carinhos entre as duas protagonistas; c) Clémentine reluta em admitir ou manifestar o que sente por Emma.

4) Bem dosadas e exploradas nos pontos certos, as tensões da aproximação entre Clém e Emma, as externas e as internas, ajudam a impulsionar a graphic novel. Sim, há o amor que enfrenta, graças à ignorância e à intolerância, todas aquelas dificuldades que poderiam ser evitadas, mas que é, obviamente, amor. Para ressaltar o fato e minar as resistências de Clémentine, Emma pronuncia uma frase piegas (e simplista), mas que faz sentido no contexto do livro: “Só o amor pode salvar o mundo. Por que eu teria vergonha de amar?”.

5) As visões divergentes de Emma e Clémentine (ressaltadas no longa de maneira distinta) têm seu peso na graphic novel. Quando conhece Clém, Emma já é lésbica assumida e participa ativamente da luta por direitos iguais. Sua sexualidade é “um bem social e político”. Para Clém, por outro lado, a sexualidade “é a coisa mais íntima que há”. Esse contraste entre as posturas, que aqui reflete uma diferença na educação de uma e de outra, acaba por se fazer sentir.

6) Não é spoiler, já que o leitor encontra essa informação nas primeiras páginas: Clémentine, quando o livro tem início, está morta. É claro que isso contribui significativamente para uma carga de sentimentalismo, mas o recurso não é vazio. A história é  contada através dos diários de Clém — diários que Emma, devastada pela perda, lê. É aí que vem uma boa sacada, quando Clémentine, em sua despedida, escreve: “Mas, meu amor, você já me salvou. Você me salvou de um mundo estabelecido sobre os preconceitos e morais absurdas, para me ajudar a me realizar plenamente”.

7) Vale destacar o amadurecimento de Clémentine (que no longa de Kechiche virou Adèle, mesmo nome da atriz que dá vida à protagonista), outro ponto fundamental do trabalho de Julie Maroh. Mais do que o avançar de sua relação com Emma, é o crescimento pessoal de Clém que está em jogo em Azul é a cor mais quente. No início ela está num relacionamento infeliz com um garoto, depois ensaia um beijo em uma amiga, e daí para frente as coisas continuam mudando. Clém caminha para a aceitação não só da sua sexualidade, mas também do que ela deseja em outros pontos da vida.

8) As ilustrações são em tons de preto e branco, com toques de azul — que aparecem no cabelo de Emma, é claro. Clémentine é tão bem esboçada quanto Emma, mas são as expressões da segunda que causam no leitor uma comoção maior. Os olhos de Emma, grandes e expressivos, lembram os de uma personagem de mangá.

9) A história é contada de maneira mais ou menos linear, alternando as cenas da adolescência de Clémentine com o momento, anos mais tarde, em que Emma lê seus diários e sofre com sua ausência.

10) Azul é a cor mais quente lembra ao leitor que relacionamentos — sejam quais forem os acordos e as circunstâncias — raramente são simples. Como ruído de fundo, a graphic novel não deixa esquecer de outro aspecto: se quisermos que todas as formas de amor sejam aceitas, ainda há luta pela frente. Belo trabalho, o de Julie Maroh.

11 Comentários Azul é a cor mais quente – Julie Maroh

  1. Graça

    Oiiiiiii,Camila!
    Saudades…
    Começamos com pé direito, azul, minha cor preferida, no título sugerido. Amei.
    Feliz 2014!
    Sucesso, hoje e sempre.
    Obrigada pela lindíssima dica.
    Beijos

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  2. Adriana

    Oi, Camila!
    Tudo bem?
    Você assistiu o filme também?
    Gostei mais do livro.
    Achei que foi desnecessário 3h de filme… Na minha opinião, em 1h30 a mensagem seria passada da mesma forma.
    Mas gostei e adorei a trilha sonora!

    Beijos,

    Adriana

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  3. Olá!
    Eu assisti ao filme e gostei bastante. Tenho muita vontade de ler a HQ, será que você poderia me indicar algum site para fazer o download gratuitamente?
    Gostei muito da sua análise, parabéns! Espero poder ler o livro logo para falar com mais propriedade.
    Um bjo.

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  4. amanda M.

    Bom dia !
    adoreeei o filme. Ele me encantou ! Fiquei sabendo que o filme foi baseado em apenas 2 capitulos do livro. E que o restante da historia surpreende ! voce sabe algum link onde posso fazer download do livro em portugues gratuito ?
    obrigada :**

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  5. Nikk

    Caramba adorei esse resumo vou ate pegar um poko pro meu trabalho. Vc d fato descreveu mt bem alguns pontos importantes do livro. Eu ate gostei do filme, mas vendo ele em comparação com o livro o filme tirou td a “magica” do amor delas. No filme parece q foi só uma paixão intensa e conturbada. Já no livro da a entender q elas viveram um amor verdadeiro e lindo apesar d complexo e dificultoso. Quer coisa mais linda do q acreditar, sentir q o amor e tao forte q vai alem da morte? E mt foda msm ele livro eu amo demais. Eu amos as frases q vc citou ai kkk. Bom… Eu cheguei por aki agr nem sabia q vc existia cliquei aki por acaso pq to procurando esse livro em PDF pra passar pra minha amg pra gnt fazer i trabalho, mas adorei td oq disse, e seu modo d descrever e tals, gostei mt então aki esta meu comentário rsrsrsrs. Me segue no google+ kkk bjs xau.

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