Asco – Horacio Castellanos Moya

Asco – Horacio Castellanos Moya

O salvadorenho Edgardo Vega emigra para o Canadá ainda jovem, tão logo enxerga uma oportunidade. Quando Asco tem início, Vega é obrigado, pela primeira vez em quase vinte anos, a retornar a San Salvador. Sua mãe acaba de morrer, e o filho deve estar presente no enterro. Os dias que passa na capital se transformam em uma tortura, ainda que nada disso possa ser creditado ao luto — aos olhos de Vega, o cenário parece decadente e desprezível.

Em busca de sossego, marca um encontro com um amigo em um bar (“o único lugar onde me sinto bem nesse país, o único lugar decente”). Bebericando um uísque, dá início ao seu discurso inflamado.

ascoEdgardo Vega maldiz El Savador e seu povo, e a contundência das críticas fez com que, depois da publicação de Asco, o salvadorenho Horacio Castellanos Moya recebesse ameaças de morte de compatriotas indignados. O fictício Edgardo Vega é de fato pedante e exagerado, feito sob medida para desencadear algum mal-estar no leitor. Não sente empatia ou compaixão. Seu discurso deixa entrever uma espécie de desespero. Tem o mesmo defeito que, numa argumentação previsível, aponta nos políticos: a ganância. Fez questão de não criar — ou de romper rapidamente — qualquer vínculo afetivo com El Salvador. Desconhece a nostalgia. A completa eliminação do sentimentalismo faz com que o personagem se transforme em uma caricatura medonha e incômoda. Vega gasta seu tempo despejando, sem interrupção visível, seu ódio contra tudo e todos que estejam ligados a El Salvador. É capaz de provocar o riso, o assombro ou, em menor grau, a identificação.

O interlocutor de Edgardo Vega é apontado como Moya, mesmo sobrenome do autor de Asco (e que também seria escritor). Quase todas as frases terminam com “me disse Vega”, sinal de que Moya está transcrevendo o discurso do outro — discurso compassado e pontuado por reiterações. Claro: o subtítulo de Asco é Thomas Bernhard em San Salvador. Num pós-escrito, Castellanos Moya admite que o livro é “um exercício de estilo no qual pretendia imitar o escritor austríaco Thomas Bernhard, tanto na prosa, baseada na cadência e repetição, como na temática, que expressa uma crítica contra a Áustria e sua cultura”. Asco guarda outro vínculo com Bernhard, que o leitor, um tanto chocado, descobre na última página.

Impossível negar que Edgardo Vega chega a ter certa razão, ainda que sua lucidez ocasional normalmente ceda lugar a uma tremenda e cegante insensibilidade. Seu monólogo anda em círculos, e ora o comentário é pertinente, ora é bile sem função. Com boas justificativas, Vega critica o desprezo de San Salvador pela própria história, critica as faculdades privadas e caça-níqueis e o estado da faculdade federal, critica o transporte público (“uma cidade que, se você não tem carro, está frito, porque o transporte público é a coisa mais incrível que uma pessoa pode imaginar, os ônibus foram feitos para transportar gado, não seres humanos”) e critica o entretenimento disponível (“uma cultura que saltou do analfabetismo mais atroz para um mergulho na estupidez da imagem televisiva, um salto mortal, Moya, esta cultura pulou a palavra escrita, apenas pulou por cima dos séculos em que a humanidade se desenvolveu a partir da palavra escrita”).

É claro que o monólogo de Vega está lotado de incongruência — algo sempre desejável no espaço da ficção. Umberto Eco definiu da forma mais clara e precisa a diferença entre a literatura e um ensaio teórico: a primeira, de acordo com ele, teria a obrigação de “representar a vida em toda a sua incoerência” e “pôr em cena uma série de contradições, tornando-as claras e pungentes”, mas poderia se eximir de resolvê-las. É o que Castellanos Moya — com precisão, ainda que sem grande sutileza — constrói em Asco.

Nós somos a exceção, ninguém pode manter sua lucidez depois de ter estudado por onze anos com os irmãos maristas, ninguém pode se transformar numa pessoa minimamente pensante depois de ter sido educado por irmãos maristas, ter estudado com irmãos maristas é a pior coisa que pode ter me acontecido na vida, Moya (…), não há nada tão idiota quanto ter se formado no Liceu de Salvador, no colégio privado dos irmãos maristas em San Salvador, no melhor e mais prestigioso colégio dos irmãos maristas em El Salvador, nada tão abjeto como a ideia dos maristas terem moldado o espírito de alguém por onze anos. Você acha pouco, Moya? Onze anos escutando estupidezes, engolindo estupidezes, repetindo estupidezes, me disse Vega. Onze anos respondendo ‘sim, irmão Pedro’; ‘sim, irmão Beto’; ‘sim, irmão Heliodoro’; Frequentamos a escola mais asquerosa para a submissão do espírito, Moya (…), foram onze anos de domesticação do espírito, onze anos de sofrimento espiritual que eu não gostaria de lembrar, onze anos de castração espiritual, qualquer ex-colega que tivesse aparecido só serviria para me lembrar dos piores anos da minha vida, me disse Vega.

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