As rãs – Mo Yan

Em outubro de 2012, quando passou a integrar a lista dos ganhadores do Nobel de Literatura, Mo Yan era praticamente desconhecido no Brasil. Mudança, publicado pela Cosac Naify algumas semanas depois do anúncio da Academia Sueca, abria uma fresta mínima para os que quisessem espreitar a obra do chinês. Relato autobiográfico de pouco mais de cem páginas, o livro traz boas passagens — como as que mostram os conflitos do menino Mo Yan, cujo nome verdadeiro é Guan Moye, na escola da zona rural em que cresceu —, mas é, no geral, um trabalho inexpressivo. De modo que continuávamos mais ou menos no escuro no que se referia ao autor.

moyan

Até agora. As rãs, traduzido do chinês por Amilton Reis e publicado pela Companhia das Letras, dá ao leitor a chance de divisar, em relação ao estilo e aos recursos de Mo Yan, um panorama mais amplo. Com a notícia da suspensão da política do filho único na China — em torno da qual o romance gira —, a leitura ganha novas ressonâncias.

Corre Corre, narrador de As rãs, planeja reconstruir a trajetória da tia, Wan Coração, uma personagem singular. Desviando de seu objetivo inicial, ele esmiúça uma porção de fatos da própria vida, que estão, de um jeito ou de outro, relacionados às ações e convicções da tia. Faz isso — num tom simples e direto — em longas cartas escritas de 2002 a 2008. Seu interlocutor é um professor japonês que o incentiva não só a prosseguir com o relato, mas sobretudo a concluir a peça baseada nos principais eventos expostos ali. Em 2009, encerrado o esforço de reunir as lembranças, Corre Corre finalmente termina o roteiro, que funciona como uma espécie de epílogo do livro.

No início de As rãs, Corre Corre descreve a miséria que o levou, a ele e a alguns colegas de escola, a comer carvão. Poucos anos depois, no entanto, o cenário já não parecia tão dramático. E foi a superação da pobreza extrema, aliada ao incentivo explícito do governo — para cada filho, os chineses de certas localidades tinham direito a “cinco metros de tecido e um litro de óleo de soja” —, que resultou na explosão populacional. A solução para aquilo que se apresentou como um problema grave foi frear o número de nascimentos.

A face da China esquadrinhada em As rãs é bem conhecida dos leitores de Xinran, famosa por resumir certas circunstâncias do país de origem para o leitor ocidental — especialmente em Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, também publicado pela Companhia das Letras. No livro, uma não ficção, a autora relata o assassinato e o abandono de bebês do sexo feminino, práticas comuns em localidades remotas. O argumento de Xinran — o aumento do sexismo relacionado ao programa de controle de natalidade do governo — também é visível no romance de Mo Yan.

Xinran observa que as famílias de camponeses, como as das comunas que servem de palco para As rãs, desejavam um herdeiro do sexo masculino. A isso a autora atribui costumes “enraizados na ignorância”, entre os quais estava “um sistema antigo de distribuição de terras” que priorizava os homens. Com o surgimento da política do filho único, os pais passaram a temer o nascimento de uma menina.

Para o governo, porém, que preferiu não levar em conta os desdobramentos negativos do programa, apenas os números importavam. Repressão era a palavra de ordem. “Famílias inteiras foram arruinadas, casas foram destruídas e muita gente morreu nas mãos de autoridades locais que praticavam políticas de planejamento familiar de forma cruel e violenta”, escreve Xinran. É um resumo fiel de As rãs.

O local e a época capturados por Mo Yan são, portanto, fortemente patriarcais. Enquanto a explosão demográfica atingia níveis alarmantes, os homens se opunham à vasectomia por medo de que o procedimento afetasse sua virilidade. A mulher era vista como parideira — e devia dar à luz pelo menos um varão. É aí que entra Wan Coração. Ginecologista, ela é designada para garantir a introdução e o cumprimento da política do filho único em algumas comunas da zona rural chinesa. E leva a tarefa a extremos, fazendo tudo, sem exceção, o que Xinran descreve.

“Será que alguém que leva o senso de responsabilidade a esse ponto ainda pode ser considerado gente?”, pergunta o pai do narrador. O próprio Corre Corre admite que a lealdade da tia ao trabalho “[resvala] para o campo da loucura”. Mais do que a uma função, Wan Coração é devotada a uma ideologia — e isso a despeito de ter passado por maus bocados durante a Revolução Cultural.

Como os melhores personagens da literatura, Wan Coração comporta muitas características conflitantes. Por um lado, a tia de Corre Corre é uma obstetra competente que ajuda o povo das comunas a abandonar as superstições e as práticas brutais das parteiras pouco instruídas. Ela também tem um lado cômico — diz coisas como “levei um bisturi no bolso, pronta para castrar aquele filho da puta”, aludindo a uma reunião particular com um colega médico de reputação duvidosa. Tudo isso coexiste com seu lado autoritário.

Em princípio, o leitor não tem acesso às dúvidas e hesitações de Wan Coração, ainda que fique sabendo de algumas das suas fragilidades. No geral, o relato de Corre Corre parece apontar — sem julgamentos — para o problema maior da interferência, por parte do governo chinês, no que deveria ser uma decisão individual das famílias. Num recorte, a narrativa mostra a própria tia, ainda que sem revelar seus questionamentos mais profundos, como o braço do poder naquelas localidades. “Não me importo de ser a malvada, alguém sempre terá de ser a malvada. Sei que vocês já me condenaram ao inferno! Uma comunista não acredita nessas coisas, uma materialista de verdade não tem medo de nada!”, diz Wan Coração.

Não é bem assim. Em As rãs, o suposto realismo mágico de Mo Yan — rótulo questionável, na verdade — aparece sobretudo nos desdobramentos do arrependimento da tia, que resultam em cenas saídas da imaginação transtornada da personagem. É justamente aí, nas manifestações da culpa e do terror, que certos problemas morais que o autor antes apenas sugeria começam a ser delineados.

Alguns acontecimentos não são plenamente desenvolvidos — no entanto, têm suas consequências sugeridas na estranha peça de Corre Corre, que se chama, é claro, “As rãs”. O título faz sentido. Segundo a mulher do narrador, “a palavra ‘wa’ pode significar tanto ‘rã’ como ‘bebê’”. Além disso, o “choro de um bebê que saiu do ventre da mãe é parecido com o coaxo de uma rã”. É por esse motivo (além do pseudônimo de Corre Corre, Girino) que as rãs ganham destaque no livro. Contudo, com exceção das referências internas à dramaturgia, o romance não guarda relação direta com a comédia de Aristófanes.

Até certo ponto, Mo Yan é fundamentalmente simples na exposição dos fatos — tanto os da vida da tia quanto os da própria. No avançar da trama, porém, embora o tom não mude, aquilo que é narrado de maneira espontânea, quase ingênua, ganha contornos cada vez mais obscuros.

Na peça de Girino, Mo Yan descreve a fórmula bem óbvia sobre “a lei universal da criação artística”, segundo a qual “a imagem vem da vida real, mas recebe acréscimos de imaginação e criatividade”. A partir de um marco perverso da história da China — sem abrir mão de delinear personagens exuberantes e complexos, brincando com as diferentes formas de estruturar e conduzir um relato —, Mo Yan constrói um livro irretocável. Um dos melhores lançamentos dos últimos tempos.

 

6 Comentários As rãs – Mo Yan

  1. ALICE

    A análise está ótima. Acabei de ler o livro e concordo. Mas não podemos esquecer da ternura da Leoazinha que, de tanto desejar um filho, é capaz de fazer seu corpo produzir leite para amamentar, aos 50 anos.

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  2. LUIZ CLAUDIO MADEIRA

    Fiquei sabendo do seu trabalho por meio da reportagem de hoje (17/06) do VALOR ECONÔMICO. Foi uma ótima surpresa.
    Obrigado por contribuir para manter vivo o gosto pela Literatura.

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