As miniaturas – Andréa del Fuego

As miniaturas – Andréa del Fuego

Segundo romance da paulistana Andréa del Fuego, As miniaturas mostra que os sonhos têm dupla função: remetem a uma manifestação do inconsciente que pode, por diversos caminhos, ser analisada e interpretada; trazem, cifradas ou não, informações de caráter premonitório (e que indicam, além de tudo, os resultados da loteria ou do jogo do bicho). As duas funções coexistem. A tentativa de enxergar o futuro nas imagens projetadas durante o sono ganha maior destaque, mas é falso (superficial, precipitado) dizer que a narrativa se detém nessa brincadeira de adivinhação. Paralelas à oniromancia — e no interior da própria vontade de prever o que irá acontecer —, estão as motivações psicológicas de personagens bem construídos.

O argumento é simples. Em um edifício de rotina burocrática localizado no centro da cidade de São Paulo, oneiros (que remetem à mitologia grega) recebem e atendem sonhantes. A função dos primeiros é estruturar e conduzir os sonhos das pessoas adormecidas. Numa sala de decoração sóbria, sentados um de frente para o outro, os dois trabalham em parceria. Um está de olhos fechados, o outro está atento à sessão. O oneiro estende uma figura e exprime ideias relacionadas a ela — “Tiro da gaveta um pequeno mar, balanço a miniatura (…), disparo frases”. O sonhante pega a deixa e avança para a cena seguinte, ou rejeita a imagem e ganha uma nova. Assim se estabelece a comunicação, e assim é sonhado um sonho. O edifício, chamado de Midoro Filho, não existe de fato — a despeito, aliás, de sua localização precisa. É como se remetesse a um outro estado de consciência. “O Edifício sugere o sonho usando o próprio, assim como a gramática usa a palavra para falar da frase”, escreve Andréa.

A frase sugere um jogo com significantes e significados — que é uma realidade, e dá o tom do romance. A miniatura é a representação literal de (possivelmente) tudo o que há para ser visto no mundo. Um ovário. O chapéu de Napoleão. Um escafandro. Uma maçã. Um pato. Para além disso, cada miniatura carrega também seu simbolismo, o que abre a deixa para as interpretações.

O caso é que há normas rígidas que devem ser seguidas pelos que trabalham no Edifício Midoro Filho. Uma delas determina que um oneiro não pode atender duas pessoas da mesma família. Sistema nenhum é imune a falhas, e um deles conduz, paralelamente, as sessões de uma mãe e seu filho. Ela, Maria Aparecida, é uma motorista de táxi que aparentemente foi abandonada pelo marido. Ele, Gilsinho, é um adolescente de dezesseis anos que ainda não sabe bem quem é (como todo adolescente de dezesseis anos). Fascinado com as semelhanças e diferenças entre os dois, o oneiro se envolve além da conta com sua situação.

Em capítulos alternados, mãe, filho e oneiro ganham voz. As narrativas em primeira pessoa mostram uma escritora segura e dinâmica, que sabe construir personalidades distintas e convincentes. Mesmo o oneiro, que é, dentro do próprio romance, uma figura dúbia e de contornos imprecisos, tem consistência. Gilsinho e Maria Aparecida não são instruídos e não pertencem à classe média alta — Andréa del Fuego foge, portanto, daquilo que costuma ser apontado como uma tendência da literatura brasileira contemporânea, o que é um trunfo à parte.

Mãe e filho têm seus próprios modos de enxergar e dizer. Sua situação financeira é precária, e ela exige que o garoto trabalhe como frentista em um posto de gasolina para ajudar no orçamento doméstico. Enquanto isso, Maria Aparecida faz suas corridas de táxi e chora por Nelson, o amante casado. Gilsinho tenta descobrir e definir quem é, o que inclui sua sexualidade. Ecos das sessões com o oneiro, pequenos e grandes, bizarros e sinistros, vão aparecendo no desenrolar de seus dias banais. Decifrá-los é parte da brincadeira.

A incerteza é a matéria-prima do romance. Os personagens, principais e secundários, não têm certeza sobre coisa alguma. A epígrafe, uma frase do argentino Rodrigo Fresán, já adianta: “Um elefante pode ser de Ganesh a Dumbo”. Há uma cena emblemática em que Maria Aparecida, preocupada com a orientação sexual do filho, decide consultar uma vidente para tentar descobri-la. Na esteira disso, até o oneiro que atende mãe e filho recorre a uma “vidanta” do Edifício Midoro Filho para enxergar com mais clareza o próprio trabalho (e a natureza da influência que exerce sobre a dupla pela qual se tornou obcecado). A mensagem: se o sujeito que comandara os sonhos não é capaz de prever nada, os sonhos também não são.

As miniaturas pode recorrer a um mundo impalpável, mas está bem fincado em uma São Paulo contemporânea. Esqueçam as narrativas cheias de névoa e os fluxos de consciência um tanto incompreensíveis. Aqui, a indistinção é de outra ordem. Há uma enorme quantidade de coisas insinuadas: As miniaturas é, definitivamente, um romance sutil. Seu único defeito — o que talvez não seja tão despropositado assim — é criar uma tensão que cresce paulatinamente, e que prenuncia uma espécie resposta que acaba não chegando. Sim, é um romance sutil.

4 Comentários As miniaturas – Andréa del Fuego

  1. Fabio Pacheco

    Suas resenhas são ótimas. Uso muito seu site pra compor minha lista de leituras contemporâneas. Em geral temos impressões semelhantes. Pra saber se não estou sendo influenciado, as vezes leio o livro antes da resenha. Kkkkk

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