As listas de Sei Shônagon

O primeiro parágrafo do prefácio situa o leitor desavisado: “O Livro do Travesseiro (Makurano Sôshi), redigido entre os anos de 994 e 1001 pela dama Sei Shônagon enquanto servia na Corte de Teishi (976-1001), Consorte do Imperador Ichijô (980-1011), em Heiankyô (atual Quioto), é, ao lado das Narrativas de Genji, de Murasaki Shikibu, a obra mais representativa da literatura clássica japonesa.”



O livro do travesseiroO livro saiu no primeiro semestre de 2013 pela ótima Editora 34. A tradução, que levou mais de dez anos para ser concluída, é assinada por Geny Wakisaka, Junko Ota, Madalena Hashimoto Cordaro, Lica Hashimoto e Luiza Nana Yoshida.

Mesmo que a plataforma de escrita (e própria motivação, e ainda o método) fosse completamente distinta, o compilado de considerações, que aqui se apresenta como um calhamaço respeitável, lembra aquilo que é costume despejar em um diário ou um em bloco de anotações pessoal. (E o título, O livro do travesseiro, não tem qualquer ligação com esse fato.) De qualquer forma, Sei Shônagon decidiu comentar a respeito de uma série de coisas. Boa parte, com exceção das observações sobre a natureza, se encaixa na definição abrangente de recortes de cenas do cotidiano. E nisso é possível incluir algumas das “listas ou catálogos de coisas afins”, que são, talvez, o aspecto mais fascinante do livro.

As listas. É inevitável pensar sobre o que continua valendo e o que é passado, ou o que simplesmente nunca se encaixou no nosso contexto. Pesco algumas das favoritas.

Ao listar “Coisas que constrangem”, Sei Shônagon não parece ter dúvidas: “Falar mal de alguém sem saber estar ele ouvindo. Nem é preciso ser alguém importante, é muito constrangedor, também, mesmo se ocorrer com um serviçal”. Talvez Sei Shônagon não fosse exatamente uma flor de pessoa, ou talvez o esforço que qualquer leitor atual faça para entender as circunstâncias em que ela viveu seja ineficaz. De todo modo, uma das “Coisas que constrangem” nunca saiu de moda: “quando a pessoa amada completamente embriagada comete indiscrições”.

Sei Shônagon também faz uma lista de “Coisas que aparentam pobreza”, e, entre outros, cita: “Uma mulher maltrapilha que carrega a criança nas costas, em dias muito frios ou muito quentes. Um mendigo velho. Um casebre com telhado de madeira enegrecido e sujo molhado pela chuva.” Em “Coisas que têm aspecto vulgar”, a autora é bem clara: “Monge gordo.”

Uma das “Coisas que aborrecem” Sei Shônagon: “tanto nas cartas quanto nas respostas já enviadas, perceber uma ou outra palavra inadequada”. Persiste até hoje. E uma das “Coisas que perturbam”, bem óbvia, e por isso mesmo inquestionável: “a sensação quando derramamos algo”. Sei Shônagon cita, nas “Coisas que provocam inveja”: “Igualmente [sente inveja] de quem tem cabelos muito compridos e perfeitos, com as pontas da franja bem acertadas.”

Gosto das listas que revelam o senso estético da autora. Em “Coisas que a sombra desfavorece” Sei Shônagon sabiamente inclui “Tecidos roxos de seda tramada. Flores lilases de glicínia. Tudo dessa tonalidade perde a beleza”. Observação questionável: “À luz da lua, o carmesim é que perde a beleza”. Sei Shônagon tem razão ao citar “Flores de cerejeira” em “Coisas que esmaecem na pintura”. A representação das cerejeiras raramente é tão bonita.

As “Coisas que são graciosas” continuam mais ou menos as mesmas, com pequenas alterações (e o que não se conhece também parece gracioso): “É muito graciosa a criança de dois, três anos, que engatinha rapidamente e, com vivacidade, descobre um pequeno cisco no chão, pega-o com seus dedos muito encantadores e mostra-o a cada um dos adultos. É graciosa também a menina de cabelo cortado rente ao ombro como o das monjas, que, para ver alguma coisa, inclina o rosto ao invés de afastá-lo quando este lhe cobre os olhos”. E continua: “Enternecem-me os pintinhos de pernas longas que lembram crianças de brancos e encantadores quimonos curtos, pinando ruidosamente e andando atrás ou à frente das pessoas. Também são graciosos quando acompanham a mãe. Ovos de ganso selvagem. Vaso de lápis-lazúli”.

Em “Coisas que fazem palpitar o coração”, ela cita: “Criar filhotes de pardais. Passar em frente a um local onde brincam criancinhas. Deitar-se sozinho enquanto queima um bom incenso. (…) Lavar os cabelos, maquiar-se e vestir quimonos aromatizados. Mesmo num lugar em que não haja ninguém especial para nos ver, o coração palpita muito inquieto. Noite em que se espera alguém. O barulho da chuva e também o soprar do vento provocam sobressaltos.” Certas coisas não mudam.

(Sei Shônagon costuma ser categórica nas listas, mas, em outras passagens, mostra que também sabe ser delicada.
“Não sem razão as entrelinhas tornam-se mais e mais significativas nos textos de Sei Shônagon: o não dito supera o verbalmente expresso, e as pausas são mais eloquentes do que as notas tocadas”, diz o prefácio. Seja como for, não dá para negar que sua percepção estética é impecável.)

É outro assunto, mas vale a menção.

Precisei copiar o trecho do prefácio (que, contrariando as expectativas, é ótimo) sobre relações amorosas. Sequer tem a ver diretamente com Sei Shônagon, mas não importa. Atentem para a parte das taças de saquê, que é quando a coisa começa a ficar realmente interessante.

“Talvez seja pertinente relembrar aqui alguns dados sobre o sistema de casamento entre os nobres do período Heian (794-1192). De modo geral, o processo trilhava os seguintes passos: o jovem indaga a pessoas de seu meio acerca das moças disponíveis (seu caráter, histórico familiar, atividades artísticas) e, se interessado, envia-lhe uma carta de proposição de compromisso em forma de poema; ou a moça, que vive recôndita nos fundos de sua habitação e não se mostra a ninguém, é por ele ‘espiada’ (emprega-se aí o termo kaimami, ‘ver através de frestas’) em alguma breve atividade exterior, e ele lhe envia sua proposta.
A resposta à carta-poema é efetuada por uma representante da dama e assim ocorre algumas vezes até que a própria moça se digne a escrever diretamente a ele (dado o sigilo e a importância de tais cartas de amor, elementos como a caligrafia, os aromas, os processos de dobras, os adendos e os emissários adquirem um caráter estético de suma importância).
Se houver interesse mútuo, o moço começa a visitar a dama à noite e eles se comunicam de maneira mediada, ela oculta por um cortinado, ele por um biombo, e devendo partir antes do amanhecer. A regra diz que após três noites consecutivas, acompanhadas de três cartas na manhã seguinte (kinuginuno fumi), ele pela primeira vez pode ver sua face. Os pais dela aparecem e selam o compromisso com taças de saquê. Ele então permanece mais tempo e os dois são considerados casados oficialmente. Como as esposas continuam a viver em seus lares de origem, recebem visitas amorosas dos esposos oficiais (matsu onna, ‘mulheres a esperar’, torna-se seu epíteto), sendo a influência de seus pais fundamental no exercício do poder político, pois as utilizam como ímãs sedutores e como progenitoras de futuros Imperadores que lhes ficam sob a guarda. As filhas passam a ter, então, excepcional valor, e são preciosamente escondidas dos olhares comuns atrás de cortinas, cortinados, biombos, treliças: a chama da lamparina e a penumbra (e seus correlatos: a ambiguidade, a alusão, o subentendido, a sutileza) passam doravante a estruturar a estética japonesa mais tradicional.”

A sutileza. Fico encantada com a sutileza do teatro.

5 Comentários As listas de Sei Shônagon

  1. Danielly

    Olá! Que resenha linda, parabéns!
    Tenho só uma correção: no início você diz que o nome do livro não tem relação com a narrativa de Shonagon ser típica de um diário. Na verdade, a expressão “livro de travesseiro”, na tradição japonesa, é uma coleção de reflexões pessoais (diário) supostamente escritas no quarto. Só à título de curiosidade, mesmo…

    Beijos!

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