As cartas de Emma Reyes

As lembranças mais antigas de Emma Reyes remontam ao casebre de apenas um cômodo em que vivia com uma mulher que talvez fosse sua mãe. Nem Emma e nem a irmã Helena, dois anos mais velha, têm certeza de quem era a jovem de cabelos negros a quem chamavam de María. É na companhia de María que as duas crianças deixam o bairro miserável da capital e percorrem, durante uns poucos anos, algumas cidades do interior da Colômbia. A existência nômade termina quando as meninas são deixadas por María em uma estação de trem. São recebidas em um convento, de onde só sairão — primeiro Emma, depois Helena — muitos anos depois.

memoria porÉ uma forma grosseira de resumir um relato extraordinário, enriquecido justamente por todos os detalhes aqui suprimidos.

Emma Reyes nasceu em Bogotá em 1919. Sua infância foi indescritivelmente estranha. No bairro pobre onde ficava o casebre, as crianças já cresciam “sabendo o que quer dizer fome, frio e morte”. Mesmo quando a situação já não é tão extrema, Emma tem de se habituar à incerteza — quanto à figura de María, quanto ao futuro, quanto à própria existência. Pouco ou nada é dito à criança.

Memória por correspondência reúne vinte e três cartas enviadas pela artista plástica ao amigo Germán Arciniegas. A primeira delas data de abril de 1969, quando Emma, aos cinquenta anos, já vivia em Paris. Pela primeira vez na vida, ela se propõe a narrar sua história do início ao fim.

Na apresentação e no prólogo da edição, dois textos dispersivos e pouco esclarecedores, o que se sobressai é o esforço para provar o valor do livro. O esforço incomoda justamente porque não é necessário: as cartas de Emma, que compõem um dos lançamentos mais interessantes do ano, se sustentam muito bem sem todo o aparato introdutório. Com alguma boa vontade, uma vez que nada é aprofundado, é possível rastrear nos textos de abertura uma ou duas pistas do que virá pela frente. Um deles se refere à natureza “fantasiosa e hiperbólica” do relato de Emma. Também há uma menção à “força que nasce da voz adulta” de Emma, que a ajudou a “recriar”, graças a “uma imaginação brincalhona”, a infância. Fantasiosa. Hiperbólica. Recriar. Imaginação.

O relato epistolar de Emma talvez se enquadre na definição de autoficção. É difícil ter lembranças tão nítidas da primeira infância, ainda que certas lacunas, segundo a própria autora, tenham sido preenchidas com a ajuda da irmã. Em resposta a algo que Germán comenta — talvez uma manifestação de ceticismo diante da boa memória da amiga —, Emma esclarece que “uma criança de cinco anos que leva uma vida normal não conseguiria reproduzir a própria infância com a mesma fidelidade”.

Quando as irmãs chegam ao convento, entendem o abismo que as separa das outras meninas. “Foi nessa época que aprendemos o que era a profunda solidão e a ausência de qualquer afeto”, escreve Emma. Não havia o que as ligasse às freiras ou às colegas. A despeito de terem feito amizade com um padre em uma das cidadezinhas em que viveram com María — uma das muitas estranhezas do livro —, as duas não compreendiam a doutrina do catolicismo.

No convento, as meninas eram submetidas a todos os tipos de castigos e abusos. Recebiam pouca ou nenhuma educação além da doutrinação religiosa e trabalhavam para custear o alojamento e a comida. Lavavam, passavam, engomavam, costuravam ou bordavam, dependendo da aptidão de cada uma. As jornadas podiam chegar a doze horas. A exploração dura até o dia em que Emma toma a decisão de fugir do convento. Ela então peregrina pela América do Sul, em situação e itinerários jamais esclarecidos, antes de receber uma bolsa para estudar arte em Paris.

Emma só aprendeu a escrever aos dezoito anos de idade. Com exceção dos erros ortográficos, que foram corrigidos, não há indícios de hesitação nas cartas — que aumentam de tamanho na medida em que o relato de Emma avança, como se a própria autora estivesse encantada por aquilo que narra.

emmareyesEm alguns casos, entendemos que Emma cria ou edita certas cenas em função do efeito dramático. Quando menciona o primeiro automóvel que chegou ao município de Guateque — um relato que será refutado por um jornalista num texto inserido ao final do volume —, ela não deixa de sublinhar a correspondência entre o fato e o primeiro homem a pisar na Lua, ocorrido no mesmo dia em que escrevia a carta.

Emma busca recriar a visão infantil. Por autopreservação ou para tornar o relato mais saboroso, ela parece relutar em permitir que o juízo adulto e experiente se manifeste abertamente. Qualquer intervenção desse tipo é rara. Mesmo quando a voz da maturidade entra em cena, o que acontece sobretudo quando a artista se dirige a Germán, não há respostas para maioria dos eventos descritos ali. Emma pode ter inventado conexões e cenas, mas não quis ou não pôde inventar soluções para certos mistérios. Permanecemos, narradora e leitor, presos à incompreensão e ao assombro da criança.

No que diz respeito ao leitor — à resposta imediata, superficial, ao conteúdo das cartas —, é impossível ignorar o caráter paradoxal que Memória por correspondência pode assumir. Em algumas passagens, dizemos que aquilo é tão inverossímil que só pode ter sido inventado. Em outras, que é tão inverossímil que certamente não pode ter sido inventado.

Há informações que ficaram de fora das cartas e que, graças à lenda de Emma Reyes, continuam a despertar controvérsia. Uma delas é bastante trágica. Emma relatou a alguns amigos que teve um filho, assassinado ainda bebê no período em que a artista residia no Paraguai. Nas memórias escritas pelo ex-marido de Emma e suposto pai da criança, o escultor Guillermo Botero Gutiérrez, não há qualquer referência ao assunto.

Para Emma, sua trajetória incomum não deveria receber mais atenção do que a obra. “Não é que eu queira que a esqueçam, mas, às vezes, tenho a impressão de que minha vida tem mais importância do que meu trabalho.” Sua reputação em Paris, sobretudo entre os escritores e intelectuais latino-americanos exilados, era a de uma pessoa generosa e ótima contadora de histórias — o que de fato parece ter sobrepujado sua fama como artista plástica. O acesso à correspondência mostra que a lenda era (e é) plenamente justificada. Mais interessante do que o conteúdo das cartas é a maneira simples, visual e espirituosa que Emma encontrou para narrar aquilo que narra. Deve ter sido um privilégio ouvi-la.

Uma anedota dá uma boa pista de como a mente da autora de Memória por correspondência funcionava. Durante uma aula com um modelo vivo, o professor de uma academia de arte francesa reclamou que Emma “não olhou para o modelo, só inventou”. É essa simpatia pela recriação (digamos) livre, com base em eventos certamente reais, que Emma transporta para a prosa.

Não nos cabe julgar o que é verdade e o que não é no relato de Emma, especialmente se entendermos que a correspondência já é considerada, de pleno direito, um gênero literário. Nesse sentido, o texto de um jornalista inserido ao final do volume, embora curioso, carece de relevância. Por mais que tenha tentado levantar algumas informações, quase não há rastros da passagem da artista pela Colômbia. O que se sabe é que Emma Reyes, que morreu em 2003, de fato viveu por muitos anos no convento, e que, graças a uma audácia digna de nota, conseguiu se tornar uma artista conhecida na Europa. O resto, para usar o clichê, é literatura. Boa literatura.

2 Comentários As cartas de Emma Reyes

  1. Graça

    Olá, Camila.
    Li Memórias por Correspondência no final da semana.
    Gostei, delicado e comovente.
    Não tem como não se apaixonar pela criança Emma.
    Abraços.

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