Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Ifemelu, protagonista de Americanah, recorre a um salão em Trenton para trançar o cabelo. Num ambiente pequeno, onde faz um calor infernal, tenta, sem sucesso, submergir num romance. Outra cliente do lugar puxa assunto, e Ifemelu se vê obrigada a responder a algumas perguntas sobre o livro que tem nas mãos. Depois de uma troca de palavras não muito cordial, Ifemelu conclui que a interlocutora acredita (ingenuamente) “ser milagrosamente neutra na forma como [lê] os livros, enquanto os outros [são] emocionais”.

É uma observação trivial, mas Chimamanda consegue dar um recado importante e pouco sutil. Isso não é um defeito. Um dos acertos de Americanah é justamente a rejeição do que, nesse caso, seria um caminho fácil e desonesto — a sutileza. Ifemelu conclui que é impossível ler uma história com alguma neutralidade. Se isso é válido para todos os livros, é ainda mais verdadeiro no caso de Americanah.

13525_ggTerceiro romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah (Companhia das Letras, tradução de Julia Romeu) chega ao Brasil depois de Meio sol amarelo (2008) e Hibisco roxo (2011). O próprio nome da autora já bastaria para torná-lo um dos lançamentos mais importantes do ano — mas o caso é que Americanah tem força própria e incomum, indo muito além da assinatura, ou seja, daquilo que Chimamanda já havia apresentado. Nele, ela aprofunda a coragem e a sagacidade já demonstradas nos trabalhos anteriores e nas famosas conferências (“Os perigos de uma única história” e “Sejamos todos feministas”).

Se o livro anterior, Hibisco roxo, causa desconforto, Americanah potencializa o efeito. Seu principal cenário não é mais a Nigéria. O feminismo persiste, mas não é o ponto central. O amadureciento está em jogo, mas tampouco é o foco da trama. A discussão principal gira em torno do racismo, tema que Chimamanda aborda com uma bem-vinda franqueza. Quando o livro tem início, Ifemelu, longe de casa há mais de uma década, se prepara para voltar ao seu país de origem. Ela agora é uma “americanah” — a forma jocosa de chamar quem saiu da Nigéria para tentar a sorte nos Estados Unidos. A expressão imita a pronúncia do inglês norte-americano.

Ifemelu está ansiosa para rever Obinze, o antigo namorado. Seu relacionamento começou ainda no colégio e seguiu pelos primeiros anos na universidade na Nigéria. No final da década de noventa, preocupada com as constantes greves dos professores em Nsukka, e depois de receber uma bolsa de uma instituição de ensino norte-americana, Ifemelu parte para os Estados Unidos. Ela e Obinze têm a firme convicção de que irão se encontrar alguns meses mais tarde. As coisas, no entanto, se passam de outra forma — a vida de uma imigrante nos Estados Unidos é mais difícil do que parece à primeira vista. Ifemelu demora até conseguir um emprego. As contas e as frustrações se acumulam. Vencida pela depressão, para de responder aos e-mails e telefonemas de Obinze. Seu contato é interrompido.

Ifemelu sofre do estranhamento que domina quem deixa seu lugar de origem para viver em um contexto diferente. Nas experiências cotidianas, ela compreende “que [há] camadas escorregadias de significado que lhe [escapam]”. Tudo é analisado a partir desse ponto de vista um tanto deslocado. Os produtos no supermercado e a programação da tevê. Os debates em sala de aula. A associação de Estudantes Africanos. O emprego como babá em uma família convencional. O namoro com um sujeito branco e rico que desconhece o sofrimento extremo. O namoro com um sujeito também negro, cujo perfeccionismo passa a sufocar Ifemelu.

Como em Hibisco roxo, em que tia Ifeoma desempenha um papel significativo na vida da acanhada Kambili, Ifemelu conta com a ajuda de tia Uju. Se Ifeoma se mosta decidida e enérgica, Uju é mais melancólica e desastrada. Em Hibisco roxo, o pai de Kambili representa a figura severa e religiosa que impõe suas regras rígidas à família. Em Americanah, por outro lado, é a mãe da protagonista quem dedica seu fervor e devoção às igrejas neopentecostais.

Não conseguiam entender por que pessoas como ele, criadas com todo o necessário para satisfazer suas necessidades básicas, mas chafurdando na insatisfação, condicionadas desde o nascimento a olhar para outro lugar, eternamente convencidas de que a vida real acontecia nesse outro lugar, agora estavam resolvidas a fazer coisas perigosas, ilegais, para poder ir embora, sem estar passando fome, ter sido estupradas nem estar fugindo de aldeias em chamas. Apenas famintas por escolha e certeza.

Quando deixa a Nigéria, Ifemelu escapa da fé cega da mãe. Como Uju mora nos Estados Unidos, a tia é um conforto no novo país. No entanto, nem a companhia da outra, com quem divide as memórias do país natal, pode mascarar a realidade — a de que ela é negra em um país racista. Sua reação é criar um blog chamado “Raceteenth ou Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulous) Feitas por uma Negra Não Americana”.

Na Nigéria, a cor de Ifemelu não era um problema. Nos Estados Unidos, porém, a situação é diferente. Sua história lembra a de Coleman Silk em A marca humana, um dos melhores romances de Philip Roth. Silk era negro, ainda que sua pele fosse muito clara. Durante a infância, Coleman escolheu, ao contrário do irmão, ignorar as ofensas que de que era alvo. Foi relativamente bem-sucedido, graças, em parte, ao exelente desempenho nos esportes, que lhe garantia certa notoriedade. Quando fica mais velho, ele é vítima de uma agressão cuja motivação é claramente racista. Injuriado, Coleman decide (ao contrário de Ifemelu, para quem não há alternativa) escapar de sua condição. Se Ifemelu combate o racismo, a estratégia de Coleman Silk é aproveitar a pele clara e, ao remodelar a própria trajetória, omitir que sua família é negra e que ele próprio é negro. Acreditando, com certa razão, que seria poupado das ofensas mais brutais, ele se transforma em um judeu. Ifemelu menciona as diferentes categorias de oprimidos num texto que escreve para seu blog — utilizando a expressão “olimpíada da opressão” com certa ironia, ressalta que hispânicos, asiáticos e judeus sofrem menos preconceito que os negros. No mesmo texto, ela chega a citar uma frase do “grande Philip Roth” (“fazer uma omelete sem quebrar os góis”).

Se o romance de Philip Roth denuncia a hipocrisia da sociedade norte-americana, deixando o núcleo duro do racismo de lado, Chimamanda não toma o mesmo caminho. Ainda assim, é tentador enxergar os romances da autora, com seu realismo cru, como descendentes, na ficção de língua inglesa, dos escritos por alguns membros da geração de Roth (também é tentador colocá-los ao lado dos trabalhos Jeffrey Eugenides e Zadie Smith, por exemplo). Seria um erro grave, sem dúvida, especialmente porque implicaria ignorar as nuances de histórias provenientes de diferentes países — tomando Grahan Greene como ponto de partida, a própria autora destaca as variações entre ingleses e norte-americanos. Além disso, Americanah traz uma espécie de alerta referente às comparações: “Você não pode ler ficção americana para ter uma noção de como a vida real é vivida hoje. Lê-se ficção americana para ver brancos malucos fazendo coisas consideradas estranhas por brancos normais”. Ela generaliza, mas não tanto assim.

O racismo e a reação a ele estão em várias situações do livro. Na eleição de Obama. Numa cena em que a mãe elitista de seu namorado branco elogia “os cílios” de Ifemelu. Nos olhares consternados dos passantes quando veem um casal formado por uma negra e um branco. Na condescendência, que também machuca. Na luta para dispensar os alisadores e manter o cabelo num afro natural. (Chimamanda talvez fique ainda mais conhecida depois de inspirar uma letra de Beyoncé, ***Flawless. Um comentário de Ifemelu em Americanah liga a autora à cantora: “Nós todos amamos Bey, mas que tal ela mostrar, só uma vez, como é o cabelo que sai natural de seu couro cabeludo?”)

Obinze divide com Ifemelu o protagonismo de Americanah — alguns trechos são dedicados a ele, e sua voz é tão sólida e convincente quanto a da mulher. Quando parte para a Inglaterra, sua experiência é semelhante à dela nos Estados Unidos. Numa cena marcante, Obinze observa que as coisas funcionam como se as pessoas “vivessem num mundo onde o presente não [tem] ligação com o passado e nunca tivesssem considerado que esse [é] o curso normal da história: a chegada em massa à Inglaterra de negros vindos de países criados pelo Reino Unido”.

O racismo não é, portanto, uma questão periférica em Americanah. Chimamanda não desvia e não suaviza o passo — e esta é a beleza do livro. Em dado momento, uma personagem, irmã do namorado negro de Ifemelu, submete um livro para avaliação. O comentário do editor é desagradável: “entendo que a questão racial é importante aqui, mas precisamos ter certeza de que o livro vai transcender a raça, para não ser só sobre isso”, diz ele. A personagem fica indignada, e diz que é “como se a questão racial fosse uma bebida que é melhor se for servida diluída, temperada com outros líquidos, ou os brancos não vão conseguir engolir”.

A pergunta é incômoda, mas parece inevitável: Chimamanda insere o romance com Obinze, mais açucarado do que o normal em livros da mesma categoria de Americanah, de forma mais ou menos irônica, como se para diluir a questão principal? Sim e não. De uma forma ou de outra, o relacionamento dos dois suaviza o que de resto é um enredo brutal. Por outro lado, Obinze, com suas andanças pela Inglaterra, dá oportunidade para que Chimamanda toque nos assuntos principais (o racismo, a xenofobia) por um ângulo diferente.

Na mesma cena em que seu cabelo está sendo trançado no salão, uma reflexão de Ifemelu aumenta a dúvida: “Por que as pessoas perguntavam ‘É sobre o quê?’, como se um romance só pudesse ser sobre uma coisa?”, questiona ela.

Chimamanda se adianta. Dentro da própria história, a autora ergue algumas barreiras contra a crítica desonesta. Se alguém aplaudir as nuances da trama e dos personagens — palavra usada quando suas particularidades fazem com que o resultado não pareça (o que muitos podem considerar um defeito) excessivamente panfletário — já há uma resposta certeira: “Nuance significa não incomode as pessoas para que todos possam se considerar indivíduos e achar que todos chegaram onde estão devido ao mérito”.

Essa ironia combativa, que não chega a ser metanarrativa, é uma das chaves do livro. Sem entendê-la, e sem perceber a complexidade deliberada, parte do sentido e da força de Americanah se perdem. Ainda que não se deva exagerar sua importância — lendo o romance unicamente por este ângulo específico —, as observações não são gratuitas.

Chimamanda ironiza as nuances — ou o valor excessivo que se costuma atribuir às nuances —, mas não abre mão delas. Americanah não é tão didático quanto O melhor tempo é o presente, de Nadine Gordimer, outro lançamento importante do ano. No romance de Nadine, os personagens e as situações parecem servir a um propósito específico — retraçar os acontecimentos mais importantes na África do Sul pós-Apartheid. As boas tiradas, a autoconsciência brutal da própria autora e a naturalidade com que a trama é conduzida salvam Americanah de ser engessado.

No final, quando ifemelu retorna ao país de origem, Chimamanda trata das mudanças que afetaram a Nigéria em um curto espaço de tempo. “Ficava pensando que as coisas deviam ter me esperado, mas não tinham”, diz Ifemelu ao voltar para casa. A imagem de Lagos que tem diante de si não corresponde à da sua memória e, ao mesmo tempo, é diferente da imagem das cidades norte-americanas onde ela morou por vários anos. É um duplo choque.

A narrativa não foge do convencional, mesmo com as voltas no tempo e com os textos do blog de Ifemelu, que normalmente encerram os capítulos. Chimamanda utiliza um narrador próximo da consciência de Ifemelu e Obinze, e (o que causa algum espanto, uma vez que pareceria uma solução mais simples para algumas cenas) raramente descamba para o discurso indireto livre.

A escrita de Chimamanda é simples, mas abrir caminho pelos capítulos não é tão fácil — Americanah é incômodo e pretende ser incômodo, de modo que as situações descritas têm o poder de deixar um gosto amargo. É evidente que (como reflete Ifemelu no salão) ninguém é capaz de ler um livro de forma neutra, e o ponto de vista vai determinar a compreensão. Mesmo assim, alcançar certas conclusões objetivas sempre é possível — e aí é doloroso imaginar que alguém pode elogiar o livro pelos motivos errados. É infeliz enxergar em Americanah apenas uma história de amor, uma vez que pressupõe ignorar toda a complexidade e ironia (onde estão, simultaneamente, boas perguntas e boas respostas do livro) por trás dela.

Na esteira de Americanah, a Companhia das Letras lançou um e-book gratuito com a transcrição de um dos famosos discursos de Chimamanda, Sejamos todos feministas. Disponível apenas no formato digital, o texto é um bom manifesto. A leitura é agradável, mas é ainda melhor assistir à fala de Chimamanda no YouTube. Há bons pontos ali, ainda que, dado o tempo limitado, a argumentação não seja profunda.

De qualquer forma, Sejamos todos feministas serve de inspiração para quem nunca entrou em contato com ideias de gênero. Nesse sentido, mesmo Americanah traz algumas discussões importantes. Na infância de Ifemelu, sua mãe observa “que, se era para [a filha] se comportar assim, melhor se tivesse nascido menino” (ela se refere à mania de Ifemelu de falar o que lhe vem à cabeça). Quando volta para a Nigéria, Ifemelu trabalha em uma revista feminina, e luta (em vão) para modificar os clichês que ainda ditam o tom das matérias.

Por fim, é preciso dizer que Americanah não é mais um livro sobre racismo que, enquanto mostra a realidade, se desculpa pelo incômodo e pelos desconfortos que o assunto pode despertar. Chimamanda quer tocar na ferida, e toca. Para além disso, compreender os jogos sutis e ligeiros que a autora insere com cuidado no enredo — entendendo sua força e as possibilidades que oferecem — é importante. Reduzir um romance tão engenhoso a uma história de amor e perda, ou a uma trama de deslocamento e estranhamento, ignorando as manobras de Chimamanda e suas críticas à produção e consumo de literatura, é ignorar as outras linhas de Americanah.

Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando.

7 Comentários Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

  1. Luan

    Senti a mesma coisa lendo, Camila. É muito comum ver gente descrevendo um livro como “não é sobre racismo, é uma história de amor”, mas Americanah é o contrário. É, sim, sobre racismo. Uma crítica que me acertou em cheio foi a de que brancos só ficarão desconfortáveis discutindo sobre racismo com negros, a discussão de brancos com brancos é bem-vinda, talvez pelo limite da empatia (que ela deixa claro no namoro com Curt).

    Amei Americanah e lerei o O Melhor Tempo é o Presente que você mencionou. 🙂

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  2. Tati

    Maravilhosa resenha, não poderia concordar mais!
    Vi em muitos lugares também essa afirmação, que o livro tratava-se de uma história de amor e que as questões raciais e de imigração eram periféricas. Cheguei até a ver uma resenha de um norte americano dizendo que Americanah era chick lit. O assunto que a Chimamanda traz incomoda e toca na ferida, dos norte americanos e na nossa também. Lembro que me senti assim quando li o livro Contos Negreiros do Marcelino Freire. Esse racismo tão institucionalizado que achamos normal que ele aconteça, já estamos acostumados.
    Abraço,
    Tati

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  3. Wilton Bastos

    Você certamente é a melhor resenhista que eu tive o privilégio de ler. O esmero que nitidamente tem com os livros é admirável. Já havia comprado o livro que resenhou agora. Sou negro, tenho plena ciência da real atualidade do racismo. Só que postergaria a leitura em nome de tantas outras que postergo há mais tempo. Não o farei. O lerei já. Sua resenha me motivou o suficiente para fazê-lo. Obrigado.

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  4. Natália

    Esse livro é incrivel. Ainda estou apaixonada por ele.
    Já tinha lido resenhas em varios blogs, mas mesmo assim me surpreendi demais com a qualidade e a intensidade da historia.

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  5. GUILHERME CIMINO

    Esse encontro do feminismo com a questão racial é o que há de mais revolucionário em nosso momento histórico… A politização do cabelo é muito bem abordada… Alô Michelle Obama! Alê Beyonce! Ajuda suas irmãs, chega de alisar! Os negros homens também, rapar curtinho é opressão, não se pode falar em escolha quando não se tem escolha… Livro bárbaro, muito importante… e gostoso de ler, é jovial…

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