Altos voos e quedas livres – Julian Barnes

Altos voos e quedas livres – Julian Barnes

“Há dois tipos básicos de solidão: o que resulta de não se ter encontrado ninguém para amar. E o que resulta de ter sido privado da única pessoa que amou.” Inserida em um dos últimos blocos de texto de Altos voos e quedas livres, a observação tem o efeito de costurar os poucos, mas remotos, núcleos do livro. É um arremate discreto e ordenador que coloca as numerosas digressões e metáforas em perspectiva, deixando claro qual o papel que os recursos desempenham na estrutura do relato.

Isso significa que, nas pouco mais de cem páginas, todos os caminhos conduzem diretamente a alguma consideração sobre o amor — este último, através exemplos menos e mais felizes, possível ou concreto. Para Barnes, o amor deve ter um “efeito moral”. Caso isso não aconteça, “então ele não passa de uma forma exagerada de prazer”.

Altos voos e quedas livres

Barnes escreveu Altos voos e quedas livres depois da morte de sua mulher, Pat Kanavagh, agente literária, vítima, em 2008, de um tumor no cérebro. Ela e Julian estiveram casados por três décadas. Entre a descoberta do câncer e a morte de Pat, passaram-se exatos 37 dias. A doença e seu curso inexorável, no entanto, definitivamente não interessam ao inglês. Barnes deseja falar sobre o buraco deixado pela partida de Pat — e o esforço criativo também é um exercício para tentar compreender e enfrentar a ausência. Assim, adiando o testemunho pessoal, o autor conta histórias que, à primeira vista, pouco ou nada têm a ver com a sua.

Dividido em três partes, Altos voos e quedas livres mistura as experiências de Barnes a outras de ordem diversa, ocorridas com personagens singulares ao longo do século XIX — ou simplesmente imaginadas pelo autor. “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”, escreve ele. As junções aleatórias e seus resultados inesperados, ponto importante para Barnes, não são visíveis apenas na temática. O próprio livro é como uma colagem particularmente rica e desordenada — e que, no entanto, funciona bem.

Iniciada de maneira incerta, a primeira parte se detém em Félix Tournachon, ou Félix Nadar, “jornalista, caricaturista, fotógrafo, balonista, empresário e inventor”. Barnes não chega a romancear qualquer aspecto da trajetória de Nadar, preferindo trabalhar com os fatos conhecidos. Nadar foi o primeiro a unir fotografia e grandes altitudes — a partir do seu balão, captou perspectivas que o mundo jamais tinha visto. Na vida privada, Nadar era boêmio e infiel, o que não o impediu de ser um marido amoroso. Quando a mulher, Ernestine, sofreu um derrame e ficou severamente comprometida, ele esteve ao seu lado. E esse gesto é essencial para que sua história apareça no livro.

Na segunda parte, Barnes imagina um breve romance entre o aventureiro/soldado inglês Fred Burnaby e a atriz e cortesã Sarah Bernhardt (que posou algumas vezes para as lentes de Nadar). Este seria o exemplo de fracasso. Burnaby, perdidamente apaixonado por Sarah, está decidido a pedi-la em casamento. Sarah, no entanto, não tem interesse em formar um casal. Não se seu par for Burnaby.

A terceira parte é efetivamente autobiográfica. Ainda que Barnes sublinhe que cada um vive o luto à sua maneira, é difícil não comparar Altos voos e quedas livres com A história de uma viúva, livro em que Joyce Carol Oates relata a morte inesperada do marido. Está tudo ali: o impulso suicida, as reações equivocadas e insensíveis dos amigos, a desconfiança de que o luto é uma espécie de egoísmo, a falta de um rumo, o medo de esquecer. Nesses aspectos, os relatos são muito semelhantes. É como se a terceira parte de Altos voos e quedas livres fosse uma versão compactada, contada a partir de uma perspectiva masculina, de A história de uma viúva.

Diferente de JCO, Barnes não constrói uma narrativa linear que se inicia pouco antes — ou pouco depois — da morte de Pat e cujo objetivo é mostrar, com recortes e justaposições de cenas, a vivência diária do luto. O autor tampouco fala sobre a descoberta da doença da mulher ou revive lembranças específicas do primeiro encontro, da aproximação e do casamento. O que Barnes despeja são pequenas epifanias sobre o amor, a perda, a solidão e a memória. Como não evidencia nenhum aspecto de seu relacionamento, Barnes não se vê obrigado a mencionar a escritora Jeanette Winterson, por quem Pat o deixou durante um curto período de tempo nos anos oitenta. (Winterson usou o relacionamento entre ela e Pat como inspiração para o romance A Paixão, publicado no Brasil pela Record.)

Se JCO chama a atenção pela prolixidade, o autor de O sentido de um fim se destaca pelas conclusões certeiras. Barnes, como Hemingway, usa uma ou duas frases para comunicar uma verdade objetiva. “Os trabalhadores do luto são autônomos”, escreve em dado momento. A delicadeza é outro trunfo do inglês — as próprias imagens de balões voando pelo céu são bons exemplos disso. O balonismo, aliás, é uma metáfora para a plenitude que o amor verdadeiro traria: “Alguns voam através da arte, outros da religião; a maioria do amor”, diz. Mas a consequência natural da subida é uma queda dolorosa.

Há várias e boas correspondências entre as três partes do livro. Imagens usadas nas histórias de Nadar, Bernhardt e Burnaby ricocheteiam por todos os lados na forma de metáforas e comparações. Barnes, afinal, fez seu trabalho como escritor: transformou uma realidade dolorosa em um livro pungente e imaginativo e, a despeito da imobilidade do luto, extremamente dinâmico. Como ele mesmo diz, os “escritores acreditam nos padrões que suas palavras criam”. E “esta é sempre a salvação deles, estejam ou não devastados pelo luto”.

3 Comentários Altos voos e quedas livres – Julian Barnes

  1. Aline T.K.M.

    Altos voos está entre minhas próximas leituras! A expectativa é alta, uma vez que gostei demais dos dois livros que li do Barnes (O sentido de um fim e Pulso). Além da própria temática, me atraiu bastante neste aí a presença da figura de Sarah Bernhardt na trama; sei lá, me passa uma atmosfera meio mítica!

    Beijos, Livro Lab

    Reply
  2. v.

    faz tempo que não comento, mas continuo lendo aqui com assiduidade.
    porra, abriu a resenha com a frase do cara, e que frase foda. no fundo, ainda acredito no amor, e acho-o muito bonito quando expresso. esse livro parece querer expressar isso. não sei, mas foi o que me pareceu. esse vai para a lista, certamente.

    gostei da novidade da ficha técnica (é novidade, né? dei uma olhada nos últimos posts e não encontrei nada do tipo) e da avaliação/nota. abraço.

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *