A origem do mundo – Jorge Edwards

A origem do mundo – Jorge Edwards

O enquadramento peculiar não revela nada abaixo das coxas ou acima dos seios da mulher. Ela está nua, deitada em uma cama, e escancara as pernas para o observador. Um lençol cobre seu pescoço e, o que é provável, seu rosto. A representação é realista e objetiva — muito diferente dos nus de inspiração clássica a que sociedade francesa estava habituada em 1866. Gustave Courbet decidiu chamá-la de A origem do mundo, e a tela é hoje um ponto de referência na história da arte. Em 1991, mais de cem anos depois da ousadia de Courbet, o chileno Jorge Edwards transportou a pintura para o centro de seu livro homônimo — uma novela de poucas páginas publicada há algumas semanas pela Cosac Naify.

Se o quadro do francês 1) causa impacto imediato e significativo, mesmo hoje 2) quebrou alguns paradigmas das belas artes 3) procurou retratar o feminino com rigor e crueza, o mesmo não pode ser dito da história elaborada por Edwards.

a origem do mundoTudo acontece no início da década de noventa — pouco depois da primeira exposição pública, no Musée d’Orsay, da pintura A origem do mundo. Na cena inicial, cujo palco é o próprio museu, o protagonista Patricio Illanes observa a tela de Courbet. Illanes é chileno, médico aposentado e septuagenário. Como muitos compatriotas, escapou da ditadura de Pinochet e agora vive em Paris. Diante do quadro, Illanes reflete que as coxas, a barriga e o púbis retratados pelo artista francês se parecem com as coxas, a barriga e o púbis de Silvia, sua mulher. Ela não gosta da comparação e repreende o marido. A brincadeira, no entanto, tem a função de trazer à tona o nome de Felipe Díaz, um amigo do casal que cultiva o hábito de fotografar suas inúmeras amantes nuas. Numa dessas incríveis coincidências, Díaz, que já dava sinais de desânimo, se suicida pouco depois. Silvia, cujas atenções e menções a Felipe sempre levantaram suspeitas, fica descontrolada ao saber da morte do homem. É o que basta para despertar o ciúme de Patricio, que empreende uma busca patética por uma resposta. Silva foi amante de Felipe Diáz ou não? De que jeito “se pode saber a verdade, ou ao menos chegar perto disso que chamam de realidade e que nos escorre por todos os lados?”, questiona ele.

A premissa não é nova, mas, se fosse bem conduzida, poderia render um livro interessante. Não é o que ocorre. A pequena novela de Edwards não é de modo algum tão rica quanto o tendencioso (já se verá por quê) Mario Vargas Llosa dá a entender no posfácio — quando diz que “sob a enganosa aparência de leve diversão, [a história] é na realidade uma complexa alegoria do fracasso, da perda das ilusões políticas, do demônio do sexo e da ficção como complemento indispensável da vida”. A origem do mundo toca de leve em cada um dos pontos citados pelo autor peruano, mas é um exagero acreditar que há mais por trás do livro de Edwards do que a própria narrativa — vacilante e de gosto duvidoso — sugere.

Minha necessidade de saber acabava com qualquer escrúpulo, inclusive com o sentimento de ridículo, o que é dizer muito para uma pessoa que nasce em Iquique, naquela parte da estreita faixa chilena.”

Vargas Llosa tem razão quando fala na “ficção como complemento indispensável da vida”. Mais do que um entusiasta da ficção, no entanto, o protagonista também é um expectador da realidade circundante. Felipe Díaz não é apenas uma figura cativante e divertida aos olhos de Patricio Illanes. O septuagenário escuta as histórias do amigo mais jovem como se lesse um romance particularmente interessante, de modo que as aventuras sexuais do outro acabam por emprestar excitação à vida tão regrada e metódica de Illanes. É como se o médico vivesse através de Díaz sem, no entanto, assumir os riscos que isso implica — ele pode, afinal, censurar o amigo boêmio por abusar do uísque enquanto bebe tranquilamente a sua limonada. Com a morte de Díaz, Illanes precisa de um substituto que lhe traga a mesma sensação de romper certos limites. Na falta de uma figura ousada, ele mesmo precisa sair do seu papel confortável e desencavar alguma ação — e esta ação é a investigação do passado de Silvia. Não surpreende que ela esteja ligada a Felipe Díaz, que sempre despertou sentimentos ambíguos em Patricio.

[1. Durante uma conversa com Díaz, o velho médico evoca o personagem libertino que ganha destaque nas memórias de Stendhal. Numa interpretação curiosa, Patricio Illanes diz acreditar que o libertino é uma faceta do próprio Stendhal, embora o francês tenha procurado dissimulá-la. Se Felipe Díaz é um crítico impiedoso do comunismo, como Edwards, e se em A origem do mundo Illanes é o bom sujeito e Díaz é o dissoluto, e supondo que o diálogo não está ali por acaso, uma interpretação possível é que Felipe Diáz é uma versão de traços ligeiramente mais carregados do autor. 1. a) Edwards escreveu um livro narrando sua frustrante experiência como embaixador chileno em Cuba — no relato, intitulado Persona non grata, ele critica fortemente o governo de Fidel Castro. O sempre rancoroso Vargas Llosa destaca que Edwards foi “vítima da inquisição intelectual da esquerda, que, desde então, deu um jeito de negar-lhe a admiração”. 1. b) Daí a avaliação tendenciosa do escritor peruano.]

Illanes perde o rumo, e as situações em que se envolve a fim de descobrir a verdade vão ficando cada vez mais patéticas. Nesse contexto, como parece inevitável, o humor é um recurso largamente empregado por Edwards. Nem sempre funciona. A pretensa graça pode assumir um caráter óbvio ou pueril. Prova de que o texto é desigual é que em uma mesma cena, como na que Patricio Illanes decide se reconciliar com um casal de amigos com quem tivera divergências políticas, há uma mistura inexplicável de boas sacadas e clichês embaraçosos. As frases alongadas e labirínticas não conseguem, na maior parte do tempo, igualar-se em elegância às frases de mesmo estilo construídas pelo espanhol Javier Marías ou o argentino Alan Pauls, ambos pertencentes a uma geração posterior à de Edwards. A voz de Silvia, que narra o último capítulo, é insossa. Edwards fracassou visivelmente ao tentar se passar por uma mulher, preferindo apelar para uma personalidade genérica.

Os bons momentos não estão ausentes do livro. É boa, como destacou Vargas Llosa, a cena que descreve o cenário do suicídio de Felipe Díaz. É uma pena que parte dos acertos do autor se perca em saídas fáceis ou se afogue em um estilo que, quando arriscado por Edwards, soa incrivelmente artificial. Os primeiros parágrafos do livro são tão incertos que encostam perigosamente no amadorismo. As emoções universais em estado bruto, as mesmas que viram obras-primas nas mãos de bons autores, se transformam, aqui, uma história banal narrada de forma canhestra. A edição caprichada não esconde o óbvio: A origem do mundo não é, sob qualquer aspecto, um grande livro.

Adendo: Edwards, um dos convidados da Flip de 2014, pertence à mesma geração de José Donoso. Se for escolher um, fique com Donoso. O ótimo O lugar sem limites custa exatamente o mesmo e é muito superior.

2 Comentários A origem do mundo – Jorge Edwards

  1. Marco

    Camila, fiquei bastante surpreso com a resenha. Comprei o livro, que me pareceu deveras interessante, mas ainda está por ser lido. Intrigante é que a Cosac teve que reeditar o livro porque a primeira edição já se esgotou, parece que tem agradado o público leitor, de alguma forma. Como ele está nas minhas leituras do ano, o negócio é mesmo ler pra saber. Abraço.

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  2. v.

    não conheço o jorge edwards, mas se eu pegasse esse livro e lesse a sinopse, acredito que eu me interessaria e o levaria comigo. não sei se haveria arrependimento depois. no entanto, após essa resenha, eu não me empolgaria tanto em colocá-lo no topo da minha lista. (lista que, por sinal, tá com “o obsceno pássaro da noite” no top 3 a ser lido, perdendo para um vila-matas e um da munro. acho que até junho eu começo/termino. ando paquerando “a morte do pai” – ia até te perguntar se realmente é tão foda assim -, e às vezes essas paqueras acabam pulando a fila)

    abraço.

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