A infância de Jesus – J. M. Coetzee

A infância de Jesus – J. M. Coetzee

Não há respostas fáceis quando se fala em A infância de Jesus

No seu mais recente trabalho, o sul-africano J.M. Coetzee recria passagens bíblicas em um cenário moderno a fim de propor um debate sobre subversão. Não é possível determinar com exatidão o espaço-tempo do romance — o que deu ao autor a liberdade necessária para conceber o estranho contexto no qual seus personagens transitam. O que se sabe é que, ao lançar pequenas alusões a episódios difundidos da suposta trajetória de Cristo — o manto branco da Virgem (aqui transformado em uma roupa de jogar tênis), as pregações (aqui colocadas como os absurdos ditos por um menino imaginativo no pátio de sua escola) —, Coetzee propõe a figura de um salvador às avessas.

Novilla é uma localidade onde se pode recomeçar a vida. Seus novos habitantes não têm a obrigação de levar consigo quaisquer pertences ou lembranças — o ideal, aliás, é que deixem tudo para trás. Os recém-chegados recebem outros nomes, uma moradia e algum dinheiro. Não é difícil arranjar emprego. A língua oficial é o espanhol, de modo que os futuros cidadãos devem aprender o idioma. Simón — é assim que foi rebatizado —, um sujeito de meia-idade, é um dos tantos que, depois de atravessar o oceano e cruzar o campo, desembarcam em Novilla. No trajeto para a vida nova, Simón torna-se o guardião de David, um menino de aproximadamente cinco anos cujos pais estão ausentes. Ainda no navio, a criança extravia uma carta que supostamente continha informações sobre suas origens. Uma vez instalado em Novilla, Simón pretende procurar a mãe de David a fim de devolver-lhe o filho. A tarefa é ingrata: o garoto é incapaz de recordar o nome ou o rosto maternos. Ainda que jamais a tenha visto e sequer saiba como ela se chama, Simón conta com a própria intuição para reconhecer a mulher.

A intuição, logo se verá, não é bem vista em Novilla. Seus habitantes mais antigos tornaram-se bizarramente desprovidos de pulsões e subjetividade. Sexo é considerado superficial. A fome pode ser tolerada e controlada com uma dieta rica em pão. A boa vontade é o sentimento predominante. Não há quem imagine, almeje ou deseje. Ao contrário da inquietação típica da pós-modernidade, todos estão, no contexto proposto por Coetzee, perfeitamente satisfeitos e acomodados. Uma amiga, Elena, moradora de Novilla, alerta Simón: “Na maneira de pensar velha, por mais que você tenha, sempre está faltando alguma coisa. (…) Essa insatisfação sem fim, esse anseio pelo algo mais que está faltando, é o jeito de pensar de que fazemos bem em nos livrar, na minha opinião”. O Estado mantém a estrutura necessária para desencorajar qualquer comportamento estranho ao que foi estabelecido como padrão (que é, afinal, fácil de prever e controlar). O básico é provido com alguma eficiência, mas até a diversão e o ensino são mornos.

Simón acaba por encontrar aquela que acredita ser a mãe de David. O significado do nome da mulher, Inés (“variante do latim Agnes, por sua vez variante de hagnes em grego, que significa ‘casta, pura'”), não deixa dúvidas sobre sua relação com a Virgem Maria. Inés aceita a criança, ainda que fique implícito que ela não é sua mãe biológica. Uma nova família se forma: Simón — o padrinho ou tio —, Inés e o menino.

David é voluntarioso e inventivo. Quando tem a idade necessária para começar a frequentar a escola, Simón e Inés descobrem que o comportamento do menino, que cada um incentiva à sua maneira, não é aceitável. É aí que seus problemas começam. David questiona conceitos básicos, convenções sociais arraigadas e as certezas mais aprofundadas dos pais postiços. Suas perguntas e ideias geram debates filosóficos com Simón — que são, de certa forma, os melhores momentos do romance.

Ambos, Simón e David, são recém-chegados. O homem acaba de se transportar de um ambiente (e de um contexto) para outro. O menino, na idade em que está, começa a perceber e questionar a realidade que o circunda. Pouco habituados ao que vê, os olhos da criança emprestarão um novo ângulo, além de novos contornos e cores mais vívidas, ao cansado Simón. Uma das respostas dadas pelo mais velho a uma pergunta do mais novo sublinha a desesperança que pode dominar alguns de nós na medida em que os anos passam: “Por quê? A resposta para todos os seus porquês, passados, presentes e futuros, é a seguinte: Porque o mundo é assim. O mundo não foi feito para nos servir, meu amigo. Nós é que temos de nos adequar a ele”.

David aprende a ler em uma versão infantil e ilustrada de Dom Quixote — um livro desmantelado encontrado em uma biblioteca ao lado de exemplares técnicos de culinária, crochê e carpintaria. O romance se torna uma espécie de livro sagrado para David; aos olhos da criança, o cavaleiro é real. É Simón quem, ao responder a uma fala do menino, acaba por propor um importante modo de enxergar A infância de Jesus: “Verdade, no livro existe um homem que se chama de Dom Quixote e que salva as pessoas. Mas algumas pessoas que ele salva não querem ser salvas. Estão contentes como estão. Ficam bravas com Dom Quixote e gritam com ele. Dizem que ele não sabe o que está fazendo, que ele está perturbando a ordem social”. Quixote, com sua imaginação fértil e sua necessidade de viver aventuras, seria o antídoto ideal para um mundo dominado pelo comodismo e pela limitação.

Como Simón informa a um professor, David tem “sua própria leitura do livro” [Dom Quixote]. É a deixa para que o leitor também tome a liberdade de fazer sua própria leitura de A infância de Jesus. David, representando a figura messiânica aludida no título, não faz um gancho com a religião das fé inabalável e das estruturas fixas, mas antes com a arte das perguntas postas, da subversão, do anseio pelo inominável, da busca por transformação a arte que se alimenta das paixões e as gera. A salvação (utópica, é claro) se daria pelo questionamento, pela provocação.

Precisa haver no mundo um lugar para o quixotesco — é o que Coetzee propôs a esta leitora.

“Enquanto eu estava no hospital, sem mais nada para fazer, tentei, como um exercício mental, ver o mundo através dos olhos de David. Ponha uma maçã na frente dele e o que ele vê? Maçã: não uma maçã, apenas maçã. Ponha duas maçãs na frente dele. O que ele vê? Maçã e maçã: não duas maçãs, não a mesma maçã duas vezes, só maçã e maçã. Aí, vem o señor León (señor León é o professor da classe dele) e pergunta: Quantas maçãs, menino? Qual a resposta? O que é maçãs? O que é o singular do qual maçãs é o plural? (…)
Mas David não nos acompanha. Ele não dá os passos que nós damos para contar, um passo dois passo três. É como se os números fossem ilhas flutuando num grande mar negro de nada e a cada vez lhe pedissem que fechasse os olhos e se lançasse no vazio. E se eu cair? — é isso que ele pergunta a si mesmo. E se eu cair e ficar caindo para sempre? Deitado na cama no meio da noite, eu podia jurar às vezes que também estava caindo — caindo sob o mesmo encantamento que toma conta do menino. Se ir de um para dois é tão difícil, eu me perguntava, como vou fazer para de zero a um? De lugar algum para algum lugar: parecia exigir um milagre a cada vez”.

8 Comentários A infância de Jesus – J. M. Coetzee

  1. v.

    dei esse livro a minha mãe de presente de dia das mães (dei em abril, porque eu não estaria com ela no dia de fato), ela leu e disse ter adorado o livro. acredito que esse livro parará na minha estante tão logo tenha a oportunidade de lê-lo. gosto muito do coetzee.

    o trecho que você destacou ao final me fez relembrar de um caso muito interessante sobre algumas formas de pensar de crianças e alguns de seus processos de raciocínio. minha ex namorada tem um filho e eu o vi se desenvolver dos três aos seis anos. lembro do conceito de passado que ele tinha, onde tudo tinha ocorrido ontem. não importa há quantos dias ou meses, foi ontem. quando ele queria dizer que algo tinha se passado há mais tempo, ele completava a informação com “ontem, quando eu era pequeno”. e essa forma de pensar da criança do trecho, david, ao ver “maçã, maçã” e não “duas maçãs”, me fez lembrar desse pequeno fato que eu achava tão intrigante e hilário.

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  2. Graça

    Amei a resenha, Camila.
    Concordo, nosso lado quixotesco necessita sempre ser acionado.
    Obrigada por mais esta sugestão.
    Abraços
    Graça

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  3. Rosana Diogo de Lima

    Primeiro livro de J. M. Coetzee que li. Ao terminá-lo, me senti como uma moradora de Novilla (a cidade “morna” descrita pelo autor), pois não consegui me apaixonar pela leitura em momento algum. Pensei em deixar o livro de lado, mas ainda tinha esperança de que algo se revelasse para mim, o que, infelizmente não aconteceu…

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  4. Carlos R. Neves

    O livro é ótimo — aliás, como quase tudo que o Coetzee escreve. A leitura proposta na resenha, que é interessante, é apenas uma das várias possibilidades que o livro suscita. Para aqueles que eventual ou pragmaticamente resistirem a encontrar “algo interessante” ou mais “substancioso” no livro, pense bem: pense melhor.

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  5. maria josé domingues

    Considero a resenha óptima, ao ponto de não precisar de elaborar uma, após a leitura hoje acabada.
    Destaco os capítulos X e XI sobre a maternidade, a paternidade e a orfandade que os adultos sentem quando as crianças se separam deles.
    p.116: «Arrasta-se de volta às docas com a sensação de que há alguma coisa que expirou em si, sentindo-se um velho. Tinha uma grande tarefa e essa tarefa foi desempenhada. […] Tem saudades do rapaz. […] A sensação da mãozinha transpirada do rapaz na sua está ainda nitidamente viva em si.»
    O mito da caverna de Platão: (p.123)
    «- Chegas aqui sem recordações, com o cadastro limpo, e no entanto pretendes reconhecer rostos do passado. Isso não faz sentido.
    -É verdade: não tenho recordações. Mas as imagens persistem mesmo assim, tonalidades de imagens. Como isto acontece não sei explicar. Há qualquer coisa mais profunda que permite também a que eu chamo a memória de ter memória. Não é do passado que eu reconheço Inês, mas doutro lugar. É como se a imagem dela estivesse implantada em mim.»

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