A espuma dos dias ganha nova edição

A espuma dos dias ganha nova edição

Boris Vian, a quem Otto Carpeaux classificou como “o último dos existencialistas autênticos”, foi um artista plurifacetado. Na definição de Carpeaux, Vian seria “uma mistura pitoresca de boêmio do Boulevard St. Germain, melancólico cantor de jazz e de ‘chanson’ de Montparnasse, e ‘hard-boiled’ provocador à maneira americana”. Vian foi poeta, ator, pintor, engenheiro, compositor, trompetista, crítico de jazz e de cinema e animador cultural. E ficcionista.

A espuma dos dias é seu trabalho mais conhecido. Publicado no final dos anos quarenta, foi esquecido durante um tempo e resgatado na década de sessenta. É considerado um clássico, o que significa que uma infinidade de leitores, antes e depois de mim, ficaram e ficarão encantados com o livrinho. É difícil apontar todas as razões pelas quais o romance é, ainda hoje, tão encantador. Inventivo, Vian concebeu uma série de objetos futuristas, o que, visto tantos anos depois, não deixa de ser insólito — estamos diante de um “futurismo-retrô”. A história, com a inspiração surrealista + caráter funesto, é curiosa. Já a edição da Cosac Naify, ideal para anotar-sublinhar-destacar-manusear, é um dos pontos que tornam o livro-objeto bastante interessante. Além disso, A espuma dos dias guarda uma espécie de trilha sonora obrigatória: jazz, especialmente “Chloé” no arranjo de Duke Ellignton. Mesmo quem lê em um ambiente silencioso escuta um piano ao fundo.

Colin é um bon-vivant; sua situação financeira é bastante confortável, o que permite que sua rotina se resuma a reuniões sociais. Falta-lhe, no entanto, alguma coisa. Quando seu amigo Chick engata um romance com Alise, uma jovem que conheceu em uma conferência de um filósofo muito peculiar, Colin se dá conta de que se sente sozinho. Numa festa, é apresentado a Chloé. Apaixonam-se. Casam-se. Seu idílio é interrompido quando Chloé contrai uma grave doença. Segundo o médico, há um nenúfar crescendo em um de seus pulmões. Um dos únicos tratamentos possíveis é cercá-la de flores.

A imagem é poderosa: uma bela jovem estendida na cama e rodeada de hortênsias, cravos, camélias, jasmins, orquídeas e rosas. (E há o funesto — a dor e a possibilidade da morte — em contraste com o belo.) Como no cinema, a montagem das cenas é de extrema importância no romance de Vian: cores, texturas e materiais são descritos em detalhes, e sobre estes elementos é lançada uma iluminação variável. Não raro há uma alusão ao movimento: “Havia torneiras de latão cuidadosamente polidas por todos os cantos. As brincadeiras do sol nas torneiras produziam efeitos feéricos. Os camundongos da cozinha gostavam de dançar ao som dos choques dos raios de sol nas torneiras e corriam atrás das bolinhas que os raios formavam ao se pulverizar no solo, feito jatos de mercúrio”, escreve Vian.

Camundongos dançam — e são, aqui, criaturas extremamente sensíveis; um instrumento chamado “pianoquetel” produz drinques de acordo com as notas tocadas; com um abacaxi servindo de isca, enguias são pescadas em torneiras de banheiros; um automóvel tem vidros amarelos, vermelhos, verdes e azuis. O surreal está em todos os cantos, dos detalhes passageiros aos mais cruciais para o romance. Essa fuga do mundo possível empresta uma leveza enorme à atmosfera construída por Boris Vian. Até certo ponto — o que se percebe sobretudo nos diálogos —, as relações entre os personagens são mais simples do que na realidade. A escrita é engraçadinha, mas A espuma dos dias está longe de ser ingênuo. Talvez por isso que o livro seja, hoje, tão significativo: graças à combinação do divertido e do trágico, que não tarda.

O ambiente alegre e curioso vai se transformando sem que o leitor perceba. Quando se dá conta, as sacadas inusitadas e paisagens exóticas já obedecem à melancolia. O surreal está lá, mas já não é agradável. A cabeça que voa depois de ser decepada por um patim não é insólita, mas grotesca e brutal. Com sutileza enorme, Boris Vian, ao alterar o estado de saúde de Chloé e a reação dos personagens à doença, altera também alguns dos aspectos do mundo exterior. Se antes Colin se divertia provando as comidas exóticas do cozinheiro Nicolas — uma das figuras mais cativantes do romance —, agora precisa se confrontar com os aspectos menos agradáveis da vida, como as armas de fogo e a mera ideia da guerra. Estes elementos cruéis vêm através de uma realidade até então desconhecida pelo protagonista: a do trabalho. A doença da mulher consumiu, além de sua felicidade, todo o dinheiro de Colin.

A brutalidade do sistema capitalista é pano de fundo para um enredo — até então — romântico. Um trecho impactante (e, nele, Vian aprofunda o recurso do diálogo), mostra uma conversa entre Chloé e Colin durante uma viagem de carro. O foco: os trabalhadores das minas de cobre, que olham para o veículo e seus ocupantes com certo escárnio. Outro personagem que é desafiado pelo capitalismo é Chick, melhor amigo do protagonista, que vê envenenado seu interesse pela filosofia de um certo Jean-Sol Partre.

Eis o motivo da alusão de Carpeaux ao existencialismo. Há uma paródia bem-humorada de Sartre, de quem, aliás, Vian foi amigo, e do enorme alcance de sua filosofia. Jean-Sol Partre, cuja companheira se chama duquesa de Bovuar, tem um séquito de admiradores fanáticos. Partre chega às suas conferências montado num elefante, com atiradores de elite a postos; nessas ocasiões, há gente que se esconde no estrado e que se empoleira no telhado a fim de ouvir suas palavras. Calças usadas e impressões digitais de Partre deixadas em livros têm grande valor para seus admiradores, que pagam altas somas pelos itens mais absurdos.

A espuma dos dias está recheado de expectativas criadas e em seguida desfeitas — em maior ou menor escala. Em dado momento, Colin decide vender seu pianoquetel para pagar o tratamento de Chloé. É fácil supor que ele vá estipular uma alta soma para o “antiguitário”. Não é o que acontece. “Seu pianoquetel é um troço fantástico”, diz o comprador, e em seguida oferece três mil “dobrezões” pela peça. Ao que Colin responde: “Não, é demais”. Do início ao fim, há desfechos de cenas que não correspondem ao esperado. E, em uma dimensão maior, a atmosfera inicial, alegre e despreocupada, é paulatinamente escamoteada. Mesmo durante o idílio, aliás, o narrador pode se mostrar mordaz: “O Religioso tinha vestido seu hábito de todos os dias, com um enorme buraco nas nádegas, mas pretendia conseguir pagar um sobretudo novo (…). Além disso, acabara de dar um calote na orquestra, como sempre se faz, e de se recusar a pagar o cachê do maestro (…)”.

Vian, como a protagonista que forjou para A espuma dos dias, sabe o que é ter a saúde debilitada. Aos doze anos, contraiu febre reumática; aos quinze, febre tifoide. Seu coração era frágil. O artista morreu de ataque cardíaco aos 39 anos, enquanto assistia a adaptação de seu livro J’irai cracher sur vos tombes para o cinema. (Não é muito correto da minha parte, mas não posso deixar de imaginar se o filme foi considerado péssimo ou, pelo contrário, excelente.)

Paulo Wernek foi o responsável por verter A espuma dos dias para o português — o que, graças aos jogos de palavras que Boris Vian dispôs ao longo da narrativa, é excepcionalmente difícil. Há toda uma história por trás da capa, que pode ser vista aqui. Foi o kitsch incontestável da composição periquitos + flores cor-de-rosa + fundo azul + estilo da fonte que me ganhou. Sintam inveja: tenho uma reprodução para colocar na parede.

— Zut… Zut… e Blam!… Peste diabo demônio. Está vendo a garota ali?…
— A Chloé?…
— Conhece?… — disse Colin. — Falei uma estupidez para ela, e por isso estava indo embora.
Ele não acrescentou que, no interior do seu tórax, era como se tocasse uma marcha militar alemã, só se ouvia o bumbo.
— Não é verdade que ela é bonita? — perguntou Alise.
Chloé tinha os lábios vermelhos, o cabelo castanho, um jeito feliz, e nada disso era por causa do vestido.
— Eu não me atreveria! — disse Colin.
Então largou Alise e foi tirar Chloé para dançar. Ela olhou para ele. Riu e pôs a mão direita no ombro ele. Ele sentia o frescor dos dedos em seu pescoço. Reduziu o espaço entre seus corpos por meio de um encolhimento do bíceps direito, transmitido, pelo cérebro, por um par de nervos cranianos judiciosamente selecionado.
Chloé o olhou mais. Tinha olhos azuis. Fez um meneio com a cabeça e jogou para trás o cabelo crespo e brilhante, e aplicou, num gesto firme e determinado, a têmpora sobre a bochecha de Colin.
Fez-se um silêncio ao redor, e era como se a maior parte do resto do mundo não valesse nem um tostão.

É grande a expectativa em torno da adaptação de A espuma dos dias para o cinema — o que se deve, em parte, à assinatura de Michel Gondry. Audrey Tautou (que protagonizou, pouco tempo atrás, Thérèse D., adaptação do clássico Thérèse Desqueyroux) faz o papel de Chloé; Romain Duris, o de Colin. Trailer aqui.

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