A doença dos protagonistas de Arnon Grunberg

A doença dos protagonistas de Arnon Grunberg

Para Samarendra Ambani, o protagonista de O homem sem doença, “a interpretação de um edifício não é óbvia”. Despontando aqui e ali ao longo deste romance do holandês Arnon Grunberg, certos trechos, como a declaração de Samarendra, servem para evidenciar o paralelo entre o projeto de um arquiteto e o de um escritor. Tudo leva a crer que os dois empreendimentos têm muito em comum. Solidez, renovação e algum tipo de proporção ou harmonia são desejáveis. Não é desejável que um livro ou um prédio seja percebido com indiferença. Mais importante, aquele que percorre uma estrutura deve desenvolver uma relação original com os ambientes, os limiares, os vãos e as superfícies. Samarendra, um jovem arquiteto, acredita nisso. “Não podemos impor ao usuário a nossa interpretação do espaço. A interpretação é dele. Somos impotentes diante da interpretação dele. Apenas podemos esperar que ele abra a porta que projetamos para ele”, diz.

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Quem abre a porta de O homem sem doença encontra uma sucessão de ambientes claustrofóbicos cuja função não fica clara de imediato. A fórmula é a mesma do elogiado Tirza: uma cena inicial banal que encerra uma tensão mínima, como um jantar prestes a começar ou um avião prestes a decolar, a partir da qual a narrativa retrocede e avança. No primeiro quadro de O homem sem doença, Samarendra se prepara para viajar ao Iraque. Uma vez em Bagdá, ele pretende apresentar o projeto de um teatro de ópera. Tudo começa com um concurso suspeito do qual ele acredita ser um dos três finalistas. A planta em que trabalhou durante semanas está protegida na pasta.

Samarendra, ou Sam, é filho de um indiano naturalizado suíço. É fácil concluir que (até a viagem ao Iraque, naturalmente) a vida do jovem transcorreu sem grandes sobressaltos. A nota dissonante na rotina da família de classe média retratada por Grunberg fica por conta da irmã de Sam, que sofre de uma doença degenerativa. Ela é Aida, como a ópera de Giuseppe Verdi. A ópera, aliás, desempenha um papel importante na trama: é graças à suposta paixão de um sujeito por Puccini que a vida de Sam acaba convulsionando.

Sam não percebe que o teatro de ópera dificilmente sairá do papel, ou, na possibilidade remota de que venha a ser construído, que não será ocupado por artistas e espectadores. Ele não compreende inteiramente a situação do país. Quando põe os pés em Bagdá, tudo ali continua a lhe parecer alienígena ou abstrato. Ao contrário do que é dito na orelha do livro, Sam não é um idealista. Ele é ambicioso. Na medida em que se pode separar as duas coisas, a ambição de Sam é canalizada para o que há de mais bonito (a obsessão pela criação) e o que há de mais rasteiro (o anseio pelo dinheiro e pela fama).

Na superfície, porém, Sam deseja apenas a adequação. Se o que seus pares fazem é pensar nos menos favorecidos, então ele também pensará. Se projetos filantrópicos, como o concurso que o leva ao Iraque, têm grande adesão e atraem simpatia, então ele participará de alguns deles. A necessidade de simular certa estabilidade o aproxima do protagonista de Tirza, Jörgen Hofmeester, para quem o importante era manter as aparências. Sam imita os gestos e o pensamento de um homem confiante e cosmopolita. Ele quer ser visto como o sujeito que deseja se tornar.

A maior ilusão de Sam é a da neutralidade. “Neutro e adequado, duas palavras que tocam o cerne de sua existência.” Em certo sentido, a neutralidade de Sam é a neutralidade do consumo. Marcas mundialmente conhecidas, como as das roupas caras que leva na mala, oferecem a possibilidade de mimetismo e camuflagem de que ele precisa. Não é à toa que o desfecho do livro ocorrerá em Dubai, reino do dinheiro e do comércio.

O desejo de neutralidade, porém, termina na maneira de se portar e de se vestir. A pior simulação, sugere Arnon Grunberg, é a simulação do altruísmo. É aqui, em outro paralelo com a arquitetura, este mais sutil, que o holandês insere a discussão sobre alteridade que está no centro de O homem sem doença. A partir dos prédios que projeta, e que costumam trair algo de megalomaníaco, Sam quer ser reconhecido. Mais do que meramente misturar suas criações à paisagem, quer que elas se destaquem. Talvez seja por isso que deseja construir um teatro de ópera em Bagdá, para onde aceita viajar: porque sabe que o prédio e ele não se fundirão, respectivamente, àquele cenário e àquela gente.

No caso de Sam, “a ausência de doença” seria “o fundamento de sua identidade”. A ausência de doença não surge apenas em contraste com a irmã Aida: ela marca, no romance de Grunberg, o contraste entre o primeiro e o terceiro mundo. Há um abismo entre as cidades de Zurique e Bagdá, um abismo que Sam — que nunca diz “sou suíço”, mas sim “sou cidadão suíço” — não compreende inteiramente. Seu pior defeito, sugere o autor, seria a ingenuidade. Sam se considera um cidadão suíço porque é “higiênico, confiável, neutro, disciplinado e também solícito”.

Em Bagdá, nada se desenrola conforme o previsto. Tudo começa com uma mala extraviada que em seguida reaparece sem as roupas caras que estavam ali. “O que ele havia pensado? Que o mundo era uma grande Suíça?”, escreve Grunberg. Por repetição, o autor garante que a arrogância e a ingenuidade de Sam sejam levadas ao extremo do ridículo. Para se convencer de que nada pode dar errado, Sam considera que “um cidadão suíço não pode ser simplesmente assassinado”. Quando tudo começa a dar errado, ele pensa que “se existe alguma esperança, está representada [pelo] passaporte suíço”.

Quando uma sensação de impotência o invade, “uma sensação que ele até [então] não conhecia”, algo em Sam começa a mudar. Antes disso, no entanto, quando veste as roupas gastas que substituem as suas, ele pensa que “não parece mais um arquiteto, nem um suíço, mas um indiano dono de uma lojinha de beira de estrada”. E Sam, descendente de indianos, não quer se parecer com um. Afinal, ele é um cidadão suíço.

 

K.

Arnon Grunberg partiu de eventos reais a fim de escrever O homem sem doença: no final da década de 1950, o famoso arquiteto Frank Lloyd Wright tentou a sorte em uma empreitada similar à de Sam. O projeto logo foi abandonado. O protagonista de Grunberg, no entanto, é excepcionalmente azarado. Um fracasso profissional não é o bastante — como um trauma não é o bastante, a humilhação sofrida até então não é o bastante e a dor física experimentada não é o bastante. É preciso mais do que isso. Assim, o calvário de Samarendra não termina em Bagdá. Em Dubai, para onde viajará algum tempo depois, tudo recomeça. Ele é detido sem maiores esclarecimentos e acusado de um crime que aparentemente não cometeu.

Há apenas uma certeza: Grunberg quer e consegue incomodar. A posição do leitor é desconfortável, quando não precária. Há humor, mas um humor pesado. “A arte não morde”, conclui Sam em dado momento. A de Grunberg (do que ele está consciente) morde. Além da tensão permanente, das cenas de tortura e de certas sugestões inquietantes, há a relação dúbia que o leitor desenvolve com Samarendra.

O que falta a Sam? Empatia? Experiência? Como Hofmeester, ele segue o plano: encontra uma namorada com a qual pretende se casar e ter um filho; é um profissional competente; simula consciência social. Tudo o que deseja é a adequação. A fim de demonstrar as fraquezas de Sam, o narrador não se afasta do protagonista, mas, ao contrário, o persegue de perto a fim de formar uma espécie de caricatura — tanto mais incômoda na medida em que Sam é de fato um sujeito ingênuo. A caricatura, porém, extravasa para a maneira como a cidade de Bagdá é retratada. E aqui, na recusa de explorar outros pontos de vista de forma menos estereotipada, também o autor parece admitir que não é muito diferente de seus pares, ou, o que parece mais provável, que o exercício não lhe interessa no momento. Sam, porém, se considera “um arquiteto dedicado” que “podia olhar o mundo de qualquer perspectiva”. É mentira, é claro.

Em Dubai, toda a situação é incontestavelmente kafkiana. Há inúmeros paralelos com O Processo — sobretudo nos detalhes, como na montagem da cena em que as roupas de Sam são levadas na prisão. A exemplo de K., Sam também não sabe por que foi detido e interrogado. Ele só ficará sabendo das acusações, todas inicialmente absurdas, no julgamento. Aquilo que Roberto Calasso escreveu em um estudo sobre o personagem de Kafka se adequa perfeitamente a Samarendra: “De agora em diante, ele estará permanentemente exposto, vulnerável, indefeso, como quem acaba de sacudir o sono e ainda não sabe onde está. Terá de se habituar a esse estado, até que o considere normal”.

Nos interrogatórios, qualquer declaração de Sam é interpretada de maneira arbitrária. “Quando se analisa minuciosamente qualquer coisa, cada detalhe se torna dúbio, ambíguo.” O mesmo se pode dizer da narrativa de Grunberg, onde as passagens, dependendo de quem lê, terão diferente peso e sentido. Eis a utilidade do paralelo entre a estrutura de um prédio e a de um livro — repisado, por Sam e por alguns outros personagens, de forma insistente. Não se pode negar que a comparação constitui um aceno muito fácil para a crítica: nessa tentativa de explicitar o que já parece bastante óbvio, o livro se torna mais frágil.

Se existe um sentido, ele é mutável e está nas pequenas cenas: um corpo sendo retirado do saguão de um hotel em Dubai, uma bicicleta parada em frente a um restaurante, uma mulher que empurra um carrinho de bebê. Também há observações e comentários estranhos que alguns personagens deixam escapar, e que Sam, em sua ingenuidade, ignora. Cada leitor que una e interprete a sequência a seu modo. Se forçar a imaginação, talvez encontre um culpado para a comédia de erros que engole Sam.

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