A coletânea de Julio Ramón Ribeyro

A coletânea de Julio Ramón Ribeyro

1.

Publicada em 2007, a coletânea Só para fumantes faz parte da coleção Prosa do observatório da Cosac Naify (“reunindo em livros de ficção ou ensaio escritores hispano-americanos e brasileiros que não podem deixar de ser lidos”).

so para fumantes

2.

Laura Janina Hosiasson, responsável pela seleção e tradução dos contos, também assina o prefácio — no texto, a fim de situar a figura de Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) num panorama geral, escreve: “Pertence à chamada geração dos anos 50, reconhecida pela crucial mudança de rumo que imprimiu na literatura peruana. Pouco depois dela, surgiriam autores importantes, como Mario Vargas Llosa e Alfredo Bryce Echenique, embora com eles já não se possa falar num grupo ou nova geração; trata-se de escritores à parte, que alcançariam o reconhecimento internacional a bordo do fenômeno editorial do boom latino-americano dos anos setenta”.

3.

(Já o prefácio maçante assinado pelo próprio Bryce Echenique parece uma piada de mau gosto com um autor tão divertido quanto Ribeyro. Não consigo compreender como alguém, em dado momento do processo, decidiu que seria adequado — e não desencorajador — colocar o texto como abertura do livro.)

4.

Só para fumantes é um livro simpático, ainda que o adjetivo possa denotar uma condescendência não pretendida. Apesar das diferenças, Vargas Llosa define o também peruano Ribeyro como “um contista magnífico, um dos melhores da América Latina e provavelmente da língua espanhola”, no que tem razão. Saltei com interesse crescente de um conto a outro. Julio Ramón Ribeyro, em parte pela boa seleção de Laura Janina Hosiasson, deixou sua marca.

5.

São treze narrativas escritas entre 1955 e 1992 — selecionadas entre as 87 que Julio Ramón Ribeyro produziuHá pouca coisa em comum entre elas. Talvez o que as una seja a desolação ou a inadequação de certos personagens, abordadas de maneira ora cômica, ora sufocante. Marcando o riso e o espanto, a ordem dos contos de Só para fumantes quase poderia formar uma senoide.

6.

Escrito em 1987, “Só para fumantes” é uma espécie de confissão, possivelmente autobiográfica, de um fumante inveterado. Seu protagonista, que sempre pode ser visto com um cigarro em uma das mãos, chega a afirmar que “os vaívéns da vida [o levaram] de um país a outro, mas sobretudo de uma marca de cigarros a outra”. O sujeito reúne cerca de sessenta cinzeiros em um apartamento em Paris, “não por mania de colecionador, mas para ter sempre à mão algo onde jogar bitucas e cinzas”. Internado pelo abuso do tabaco — e correndo risco de vida —, escapa para o banheiro do quarto do hospital para dar umas baforadas. Não espere por um final com uma moral: é possível enxergar no relato tanto uma apologia às delícias quanto um alerta para as consequências do fumo. O humor, em todo caso, parece prevalecer em “Só para fumantes”.

7.

“Urubus sem penas” (1955) desfaz o riso com uma temática sombria. Um velho manco força os dois netos a recolherem restos de comida para alimentar um porco glutão. Não há qualquer traço de humor, e o final é aterrador. A graça retorna em “Explicações a um cabo de polícia” (1958), o hilário monólogo de um bêbado diante de um policial — aqui, Julio Ramón Ribeyro é perspicaz ao falar dos castelos que qualquer um ergue facilmente no ar. “O professor substituto” (1964) faz retornar o incômodo. Calculada, a tensão é quase insuportável. A intenção do autor, é claro, é fazer o leitor suar como o protagonista, um professor de história que oscila entre se sentir despreparado e importante antes de dar sua primeira aula. Toda a carga de aflição é construída durante alguns minutos na vida desse personagem patético, que dá voltas pelos arredores da escola e não se decide a cumprir o papel que lhe cabe. “Ao pé da escarpa” (1964), que mostra a difícil trajetória de um homem simples, aprofunda o incômodo com a temática da desigualdade social. Em “Ridder e o pesa-papéis” (1972), o autor flerta com a literatura fantástica — um homem perde seu pesa-papéis e o encontra mais tarde em um lugar improvável. “Espumante no porão” (1972), uma sátira da burocracia e da politicagem, exibe o constrangedor comportamento de um protagonista adulador e subserviente. “Os jacarandás” (1972), sobre um viúvo que retorna à sua cidade para encerrar definitivamente uma questão importante, é simultaneamente delicado e mórbido. (Embora Laura Janina Hosiasson tenha classificado o conto como “esplêndido”, ele me parece o mais fraco da coletânea.) “O armário, os velhos e a morte” (1972) tem um espelho como figura central. Já em “O pó do saber” (1977) são os livros que tomam o lugar principal. “O embarcadouro na esquina” (1977) me parece o segundo melhor relato do livro. A primeira cena mostra sua força: um homem nu em uma granja procura desesperado por suas roupas, até que acaba vestindo a indumentária de um espantalho. Daí em diante, como num carrossel desvairado, a narrativa fica cada vez mais alucinada — já que é contada, em parte, do ponto de vista de um personagem não totalmente sóbrio, justamente o sujeito da cena inicial. Oscilando entre a loucura e uma lucidez acachapante, um poeta marginal, bêbado e sujo, comparece a uma reunião de sua antiga turma de colégio. O contraste entre ele e seus colegas bem-sucedidos (seguindo o modelo do que a sociedade costuma considerar bem-sucedidos) é visível. “Tia Clementina” (1992) deixa um gosto amargo, mas tem sua graça. Uma solteirona finalmente encontra um marido, e ele é rico. O que pode surgir daí?

8.

“Silvio no Roseiral” (1977): um nome insípido para um conto assombroso. Silvio herda uma fazenda onde há um roseiral enorme e famoso na região — e ainda que inicialmente não goste da ideia de tomar conta da propriedade, acaba se habituando à vida tranquila no campo. Quando decide visitar uma espécie de mirante da casa, a partir do qual poderia ter uma boa vista do lugar, descobre que as roseiras, ao contrário do que se pensava, não foram plantadas de modo aleatório. Foram, isso sim, dispostas segundo um estranho padrão. Obcecado pelo enigma, Silvio conclui que formam uma mensagem em código morse. Depois de decifrá-la, chega à palavra RES. Silvio pensa em rês — os rebanhos, os animais. Nenhuma conclusão parece vir daí. Silvio então lê a palavra de trás para frente, chegando a SER. Ser como substantivo ou como verbo no infinitivo? Silvio não sabe. Um tempo depois, descobre que em latim res significa “coisa”; em catalão, res significa “nada”. E brinca com os significados, sempre tentando chegar a alguma espécie de verdade. Sim: “Silvio no roseiral” é um conto existencialista escrito por um peruano que viveu alguns anos na França. Enquanto tenta desvendar o mistério do jardim, Silvio começa a prestar atenção a outros aspectos do cotidiano. Redescobre a música — o violino —, o que, no conto, funciona como uma possível uma explicação para o sentido da vida de Silvio. E se apaixona, o que poderia ser outra (e o leitor menos sentimental pensa que um conto tão bom não pode acabar de maneira tão melodramática). E se envolve com o funcionamento da fazenda. Nada disso basta. A cena final parece um tanto gratuita, mas, justamente porque não fornece uma conclusão óbvia ou peremptória, é brilhante.

9.

Qualquer pessoa genuinamente interessada em contos faria bem em ler Só para fumantes. E, apesar do título, apontaria “Silvio no Roseiral” como o verdadeiro destaque da coletânea. É nele que o narrador diz, ao descrever uma peça que Silvio acabara de executar em sua propriedade — uma peça na qual a plateia prestou pouca ou nenhuma atenção: “Johann Sebastian Bach passara por ali sem que eles vissem nem o menor de seus cachos.” Julio Ramón Ribeyro passa por aqui, e sempre é tempo de conferir seus fios engomadinhos.

3 Comentários A coletânea de Julio Ramón Ribeyro

  1. Fernando

    Oi Camila que dica valiosa, adoro contos e fiquei impressionado com sua resenha!

    Feliz ano novo e longa vida ao Livros Abertos!

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  2. Graça

    Oi, Camila!
    Estou por aqui novamente… por gostar muito do blog e de contos.
    Fernando comentou que ficou impressionado com a sua resenha, eu não sei mais o que dizer.
    Este blog é um vício do bem.
    Simplesmente sensacional!
    Beijocas
    Graça

    Reply

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