A cidade, o inquisidor e os ordinários – Carlos de Brito e Mello

A cidade, o inquisidor e os ordinários – Carlos de Brito e Mello

Acontece na região central de uma metrópole. Um sujeito convoca “todos os homens que dormem e acordam” na vizinhança a “examinar, com severidade, seu caráter, seus modos e suas ações”. Seu nome é Decoroso; sua lei, arbitrária. Sua inquisição “não presta contas a nenhum Estado, a nenhuma Igreja”. Por acreditar que a humanidade está entregue à própria sorte, o Decoroso confere a si mesmo o direito de julgar e punir o comportamento alheio.

A inquisição que instaura persegue os sujeitos que cometeram um tipo peculiar de delito: se afastaram de suas famílias e amigos, deixaram de lado suas obrigações e empregos e agora se recusam a sair da cama. O Decoroso costuma chamá-los de “bobos”. Apesar de desprezar outras atitudes que considera torpes, é para os bobos que o inquisidor volta a sua autoridade. Para ajudar o líder na cruzada contra o mau comportamento, entram em cena o Apregoador e o Olheirento. O primeiro anuncia, aos gritos, os feitos do seu senhor; o segundo observa o interior das casas e permanece em estado de alerta para o caso de encontrar um bobo ou alguém que se oponha à inquisição do Decoroso.

A cidade, o inquisidor e os ordinários tem muito em comum com as “peças de moralidade” que estiveram em alta nas décadas de 1560 e 1570 — na definição de Stephen Greenblatt, “sermões seculares que pretendiam mostrar as terríveis consequências da desobediência, da ociosidade e da devassidão”. A própria forma como o romance está estruturado lembra uma peça de teatro. “Normalmente, um personagem — uma abstração antropomorfizada com o nome de Humanidade, ou Juventude — se afasta do caminho certo, como o Divertimento Honesto e a Vida Virtuosa, e começa a dedicar seu tempo à ignorância, ao Tudo-por-Dinheiro, ou ao Distúrbio”, escreve Greenblatt. (Como Shakespeare se tornou Shakespeare, Companhia das Letras.)

Mesmo secular, a inquisição do Decoroso tenta compensar a ausência de uma divindade atuante, chamada, no romance, de Destinatário. Está clara a sua relação com o Deus cristão. “Talvez a destruição dos templos ou sua transformação em casas de espetáculo O tenham feito confundir os endereços, e, desde então, Ele vem se atrapalhando nas aparições em atendimento às preces. O fato é que o fiel passou a rezar sozinho, o aflito enfrentou sem companhia sua aflição, e a moral, até então por Ele determinada, passou a ser um encargo do próprio indivíduo”, diz o Decoroso. Aqueles que não são capazes de conduzir a própria vida dentro dos limites que a inquisição considera saudáveis devem pagar um preço.

As falas e ações estão distribuídas entre personagens que, em sua maioria, foram listados no começo do livro. Todos transitam pela mesma vizinhança. Há a Amada, uma dona de casa que se descobre insatisfeita com a vida que leva. Há o Bem Composto, um alfaiate que renega a antiga identidade e a quem o Decoroso encara de maneira dúbia. Há o Versificador, um poeta que sobrevive e rima graças a medicamentos que controlam o humor. Há as Vizinhas, mulheres que fofocam com avidez e parecem escutar e saber de tudo o que acontece nas redondezas. É intencional que os personagens sejam ao mesmo tempo caricatos e singulares. Mesmo assim, as personagens do sexo feminino parecem mais estereotipadas do que o necessário. A inquisição só condena homens — o Decoroso admite não saber muito bem como classificar as mulheres.
O romance de Carlos de Brito e Mello se detém nessa rotina banal de uma vizinhança incrustada em uma cidade grande — mas o comum para por aí. O formato do romance, com seus diálogos recitados e seus personagens curiosos, funciona excepcionalmente bem quando combinado a uma trama contemporânea. O resultado é que o romance de Carlos de Brito e Mello está entre as melhores leituras do ano. Aliando originalidade e um humor peculiar, A cidade, o inquisidor e os ordinários causa um incômodo considerável. E o incômodo, aqui, é mais do que desejável.

Não há respostas ou rótulos fáceis quando o assunto é este livro. O desfecho pode ser encarado de várias maneiras. Embora não seja devoto, O Decoroso flerta, no final, com uma moral cristã. Ao rogar pela figura divina que teria abandonado seus filhos, o autor deixa de lado — deliberadamente, como se vê na entrevista — os grandes temas da atualidade cuja discussão o cristianismo barra ou refreia: os direitos dos homossexuais, a igualdade entre os gêneros, a autonomia de pesquisas científicas, o uso de contraceptivos e o aborto etc.

Mais do que de uma moral ou das possibilidades e impossibilidades da fé no século XXI, A cidade, o inquisidor e os ordinários fala da dificuldade da vida em comunidade. Como diz o Decoroso: “é difícil fazer parte de um mesmo e odioso grupo, e ainda por cima chamá-lo de sociedade”.

A cidade, o inquisidor e os ordinários, como destacado no texto da orelha, traça “um caminho absolutamente singular na prosa brasileira contemporânea”. É possível falar em literatura experimental. Como surgiu a ideia para o romance? Foi uma aposta difícil de ser feita?

Carlos de Brito e Mello: Mais do que classificarmos uma literatura como experimental, acho que é sempre possível — e mesmo desejável — falarmos de literatura como experiência. Isso significa colocar em suspensão — e sob suspeição — os modos mais acostumados de concebemos as significações e promover alguma investigação acerca das potências da palavra. É preciso nos dirigirmos àquilo que ainda não conhecemos até topar com o estranho — e ficarmos ali pelo tempo que conseguirmos. A cidade, o inquisidor e os ordinários surgiu, em parte, desse movimento. Eu tinha em mente colocar em questão certos aspectos da vida social, especialmente relacionados à política e à religiosidade. Mas a maneira como a narrativa se construiu orientou-se menos por uma visada realista que pelas estranhezas que marcam o convívio humano, resultando enviesada, ambígua, e não predeterminada. Foi uma aposta difícil, com uma quantidade maior de desafios do que eu tinha enfrentado até então, caminhando pela alegoria, testando as vozes dos personagens na elaboração de um grande diálogo citadino, articulando destinos variados, conferindo a validade dos posicionamentos do principal narrador…

O romance é, de modo geral, extremamente bem-sucedido. Como foi o percurso que levou ao produto final (a quantidade exata de personagens, a maneira de expor as falas e as ações et cetera)?

Carlos de Brito e Mello: O ponto de partida do romance foi o enunciado que consta como epígrafe: “É um homem; está condenado”. Todo o resto era então desconhecido: que voz teria dito isso? E a respeito de quem? A figura do inquisidor surgiu como proprietária dessa voz (mas demorou muito para que ele viesse a atender por Decoroso e ganhasse contornos mais complexos, para além de sua função inquisitorial). Alguns perseguidos apareceram logo em seguida: um homem que negava o próprio nome, uma mulher que negava o amor… Ainda não eram personagens conformados, mas possibilidades, aberturas: “por que alguém rejeitaria o nome, por que recusaria o amor?”, eu pensava. Aos poucos, em notas soltas e isoladas (como costumo trabalhar durante a primeira parte do processo de escrita), a voz desses recusantes apareceu com alguma identidade, trazendo consigo também um pouco de destino. A partir daí, a trama expandiu-se, progressivamente, pela cidade: o Decoroso ganhou um servidor, que vivia no alto de um edifício, mas este, logo, dividiu-se: surgiram, assim, Olheirento e Apregoador, que se anunciavam como integrantes da inquisição. A Quituteira foi posicionada de modo a servir de pivô para a entrada de outros moradores da cidade. Eram todos personagem que, no início, pronunciavam-se exclusivamente por meio de depoimentos – mas a conversação resultante disso trouxe excessiva rigidez e frieza. Aproximar as vozes umas das outras, de modo a compor um grande e encadeado diálogo, foi resultado de quase dois anos de trabalho (dos três, que levei para escrever o livro).

Para funcionarem, os personagens de A cidade, o inquisidor e os ordinários não poderiam ter uma personalidade extremamente detalhada, mas, até certo ponto e dentro de certos limites, o fluxo de consciência não só é permitido como é desejável. Essa me parece uma das grandes sacadas do romance — o foco no comum e no individual. Foi muito difícil escrever nessa corda bamba? Sei que é difícil mensurar, mas sua experiência como psicanalista contribui para essa construção apurada dos personagens?

Carlos de Brito e Mello: Foi um desafio, sim. Até onde eu poderia saber sobre os personagens — e, mais do que isso, até onde eu desejaria saber? Decidi não saber demais, mantendo-os, também para mim, numa certa zona de indeterminação. Quis menos descrevê-los, e mais fazer com que se apresentassem pela própria palavra que dessem conta de enunciar, com a ambiguidade e o engano que toda palavra pode comportar. O ordinário, parece-me, apresenta-se assim: não se conforma completamente a um tipo, mantendo-se, opaco, fora do alcance de uma delimitação consistente, bem acabada, escapando de uma completa identificação e localização. Foi preciso admitir que nem tudo poderia ser conhecido e assumir, no interior da própria trama, tropeços e fracassos. Mas os tropeços e os fracassos — a perspectiva psicanalítica mostra isso — são formas pelas quais algo de verdadeiro se revela. Acredito que a formação psicanalítica ajude a compreender parte do processo de escrita, mas não escrevo tendo a experiência clínica ou a teoria — psicanalítica ou outra qualquer — como referência direta. A literatura maneja forças que devem permanecer indóceis, recusando arcabouços conceituais previamente estabelecidos, aos quais seria obrigada a se conformar. O texto literário não é um bom lugar para demonstrar que sabemos ser sabichões.

A cidade, o inquisidor e os ordinários coloca em evidência antigos dilemas que reverberam com enorme intensidade no século XXI. Só para citar alguns exemplos, há um poeta viciado em medicamentos psiquiátricos, um alfaiate com identidade ambígua e diversos sujeitos que, por qualquer motivo, permanecem isolados e apáticos. Todos eles, além de outros elementos da narrativa, representam bem o mundo moderno. Por que as personagens do sexo feminino, ao contrário dos homens, carregam algo de antiquado? Há uma quituteira, uma sedutora, uma dona de casa insatisfeita — estereótipos que não dão conta de representar a mulher contemporânea.

Carlos de Brito e Mello: Eu não pretendi que, no livro, os homens fossem, obrigatoriamente, representantes da cena social contemporânea — com suas tensões e dilemas —, nem que as mulheres ocupassem apenas lugares históricos envelhecidos e estereotipados. Mas a observação que você faz é atenta, e só posso responder com uma posição (pouco esclarecida, é verdade, seria necessário pensar um pouco melhor sobre isso) mais pessoal do que, propriamente, relacionada à narrativa. Acho que, justamente por terem sido sujeitadas a papéis sociais (não sei se já se desgastou essa terminologia, mas vamos usá-la por ora) muito enrijecidos e limitados quanto às possibilidades de ação, de voz e de participação pública, muitas mulheres, não podendo simplesmente rasgá-los, aprenderam a manuseá-los, a jogar com eles, criando clandestinas zonas de manobra de sua própria identidade e denunciando certo caráter de representação da vida cotidiana e dos gêneros. É isso que, em parte, fazem a Impostora e a senhora Amada; vestem-se, desvestem-se, como que avisando que a diferença entre verdades e mentiras não pode ser tão nitidamente definida. Quem — basta ver o destino de alguns personagens — se aferra a uma verdade (ainda que, para nós, apenas suposta) tende a desabar.

A inquisição se detém apenas no indivíduo que abandona o convívio social para se entocar e definhar. Por que o foco nesse problema específico? Você chegou a cogitar, em algum momento, que o Decoroso condenasse outras posturas? Claro, há uma ideia de comunidade que perpassa todo o livro, mas você não se abstém (o que é notável) de abordar outras questões.

Carlos de Brito e Mello: Eu desejei que o condenado fosse alguém que ferisse o compromisso (estou falando nos termos do inquisidor) com a comunidade à qual pertencesse. Que, com sua conduta, negasse um padrão social que estaria na base de todo laço de convívio. Que ferisse, agindo assim, o código de valores que a inquisição estabeleceu como sua inquestionável tábua de leis. Por isso, considerei que a bobeira tivesse sempre esse componente de isolamento e definhação. Além disso, quis que a legislação do Decoroso seguisse, em alguma medida, as já existentes, reais, que são muito orientadas, previstas, determinadas, e não vagas, aleatórias. Mas, sim, considerei outros modos de um homem ser bobo — que, acredito, sejam incontáveis e variados — a partir do arranjo particular de suas manifestações. Cada condenado, por exemplo, embora apresente as mesmas características centrais da bobeira, possui particularidades que o tornam especialmente bobo.

Ao final da leitura de A cidade, o inquisidor e os ordinários, é difícil determinar se há um posicionamento, ou se, ao contrário, o romance abraça a dúvida. Se por um lado o Decoroso deixa claro que Deus (se existir) está fora de combate, por outro ressalta a nossa qualidade de filhos carentes de afeto, orientação e castigo — o que, por sua vez, apontaria um sentido. Ele deseja acreditar em Deus e clama por Ele. Na esteira disso, questões que inevitavelmente têm esbarrado nas religiões cristãs — a igualdade entre os gêneros, os direitos dos homossexuais, o debate sobre o aborto e os avanços das pesquisas científicas — não são exploradas. Não fica claro, em resumo, como a humanidade, independentemente da divisão entre os conservadores e os progressistas, lidaria com esses problemas caso um Deus hipotético resolvesse voltar a interferir no nosso destino comum. Essa ambiguidade (que também é política) é proposital? Também é possível enxergar, nessa indistinção, a dificuldade do mundo moderno de absorver certas doutrinas religiosas.

Carlos de Brito e Mello: Sim, a ambiguidade é proposital. Não pretendi abrir tantas questões para fechá-las em torno de um conjunto de posicionamentos. A maneira como as vozes aparecem nesse grande diálogo que sustenta o livro é indicadora de variedade, de singularidade, de pluralidade, o que impede uma visada homogeneizadora e razoável para toda a narrativa. Os temas que você relaciona são, sem dúvida, atuais e pertinentes, mas se encontram para além da minha abordagem e dos meus propósitos nesse livro. Entre conservadores e progressistas, existem muitas variações, que nem sempre se apresentam com clareza e coerência. A religião, por exemplo, é um campo cheio de invenções, adaptações, torções, dubiedades… Ela também carrega um elemento fortemente ficcional — embora, com muita frequência, resultando em má ficção, aprisionadora e punitiva, incapaz de possibilitar abertura e esclarecimento ao indivíduo que a pratica e ao grupo social ao qual ele pertence. Parece-me que são determinadas doutrinas religiosas que enfrentam muitas dificuldades em lidar com questões contemporâneas, e os dogmas servem exatamente para eliminar dúvidas e hesitações: diante de uma quantidade e qualidade grande de perguntas, o dogmático oferece sempre a mesma resposta — para si e, o que é pior e mortífero, para os outros. A crença individual transforma-se, então, numa generalizante catequese terrorista, extensiva a todos, daí por diante, obrigados a se ajoelhar diante do mesmo altar. Mas um dogma parece ser um alívio para alguns, que não precisam mais se implicar nas perguntas nem se responsabilizar pelas respostas: basta repetir o que foi transmitido.

No ótimo A Informação, o jornalista norte-americano James Gleick aponta as consequências do excesso de dados que processamos diariamente. “Tudo nos vem instantaneamente, ou à velocidade da luz. Trata-se de um sintoma da onisciência”, escreveu. O Olheirento, personagem responsável por acompanhar o que se passa na cidade, é uma resposta à era digital de hiperinformação? Isso dialoga com a tendência crescente da nossa hiperexposição em redes sociais?

Carlos de Brito e Mello: O Olheirento responde por uma ambição antiga, impossível de ser realizada completamente — por isso mesmo, atribuída a Deus – que é a de saber. Saber do mundo, saber de sim, saber do outro… Mas saber de si pode ser arriscado, doloroso e comprometedor. Sabe-se lá o que poderá ser descoberto… É sempre mais seguro saber do outro. Acho que o Olheirento — e toda vigilância praticada pelos personagens em geral, como a Quituteira, sempre atenta aos movimentos dos outros moradores — indica um costume nosso, comum e velho, que é o de observar, vasculhar, criticar, julgar a vida alheia. É sempre mais fácil providenciar uma fogueira punitiva quando o condenado é um vizinho, um colega de trabalho, um parente. Mas os homens e mulheres de “A cidade, o inquisidor e os ordinários” são, até nisso, ordinários, não conhecem fluxos de informação digitalizada, nem acessam bancos de dados, nem fazem parte das redes sociais, a não ser daquela rede antiquada, da qual já fazem parte como vizinhos, transeuntes, moradores de uma cidade. São mexeriqueiros e enxeridos, gostam de cochichar, de debochar… E mostram que sabem pouco, que o saber não os tornou melhores do eram.

“Se o Destinatário fosse ainda como foi durante eras e mais eras, imperioso e punitivo, eu não precisaria estar aqui hoje, servindo de corretor das almas perdidas. As multidões insistem em louvá-Lo pelos Seus ostentados feitos, mas esperava-se obra mais bem-acabada do Criador que nos arranjaram para louvar. Eu rezaria mais frequentemente e com mais crédito por um Deus ora colérico ora bondoso que nos servisse como certeira medida do bem, cujo Verbo fosse ainda capaz de gerar o espaço, de calcular o tempo, de ordenar a matéria, de fecundar as santíssimas, de inspirar os profetas, de castigar os patetas. Mas vejam só o que temos: cômodos com paredes rebocadas, ruas estreitas; relógios atrasados; nuvens gastas e amarelas, lagoa parada, minério pobre; santas carentes, profetas descrentes, patetas à larga. Rogaram-nos praga? Somos a praga.”

“Para provar o que diz o Decoroso, citadino, faça um teste: escolha uma região do centro desta cidade; demarque um trecho de rua; tome como ponto de partida uma beirada de calçada; siga em frente, de modo a percorrer o quarteirão inteiro e atingir a calçada correspondente; durante o trajeto, olhe, de alto a baixo e atentamente, para as pessoas com as quais cruzar: o que vê agrada ou lhe causa repulsa? Aposto que você, citadino, será capaz de relacionar muito mais pessoas a lhe causar repulsa do que a agradá-lo. Porque a verdade é que, embora conte com essas pessoas para fazerem de você um concidadão, meu caro colega da metrópole, você não gosta delas. Posso até apostar que muitas das que andam na sua frente ou daquelas com quem tromba não passam de obstáculos entre você e seu ensejado destino: o ônibus; o trabalho; a casa; uma fornada na padaria; um copo de cerveja; um cigarro aceso; um encontro concupiscente. Não é curioso que passemos uns pelos outros diariamente, na mesma cidade que nos faz vizinhos, sem prestarmos quase atenção nenhuma em quem divide a calçada conosco? Mas não há nada de curioso nisso. Prestar atenção cansa e chateia; os outros cansam e chateiam. Não é à toa que não lhes damos a mínima. Mas vamos supor que você tenha ficado envergonhado com essa constatação e que não admita a prevalência dos transeuntes repulsivos em sua conta. Talvez você prefira disfarçar os números e apontar equilíbrio entre eles. Pois bem: aqueles que o agradaram ou lhe causaram repulsa, não importa, devem estar longe, seguindo rua abaixo ou acima. Faça-me o favor de correr de volta até reencontrar um deles, qualquer um, na multidão. Aproxime-se, mas não o ultrapasse. Siga-o e procure observar nele o que tem de agradável ou repulsivo. Se você for pelo menos um pouquinho sensível e honesto consigo mesmo, perceberá que seu perseguido não é de todo estranho, que ele tem algo que você é capaz de reconhecer como sendo familiar, quem sabe até íntimo, e concluirá que tanto o primeiro quanto o segundo atributo, de agrado ou repulsão, você é capaz de admitir no outro porque também os tem. Você também ou é agradável ou é repulsivo, citadino, se não for uma união baralhada dos dois.”

“Por temermos o que fica abaixo e não alcançarmos o que está no alto, colecionamos o mediano. Nossos currículos não registram nenhum feito heroico; o nome de ninguém que tenhamos salvado; a descoberta de nenhum país; nenhuma medalha ganha; título nenhum; nenhuma menção honrosa; não há registro sequer de um triunfal par ou ímpar que tenhamos vencido numa infância que a fotografia, terminantemente, ignorou. Não somos convidados para muita coisa porque nosso comparecimento não causa expectativa nem alarde; não produzimos obras de arte; não produzimos guerra; não produzimos milagres.”

4 Comentários A cidade, o inquisidor e os ordinários – Carlos de Brito e Mello

  1. Graça

    Oi, Camila!
    Obrigada por mais esta sugestão.
    Resenha nota 10.
    Honestamente, não sei o que está melhor : o entrevistado ou o entrevistador (que questiona com senso de observação impressionante).
    Estou apaixonada pela singularidade abordada no livro e em seu comentário.
    Parabéns! Parabéns!
    Amei.
    Beijos
    Graça

    Reply
  2. Aléxia

    A resenha e a entrevista estão incríveis!

    Eu já tinha visto um vídeo resenha no youtube sobre esse livro e fiquei curiosa. Agora, com sua resenha, preciso lê-lo de qualquer maneira! Rs…!

    Reply
  3. Fernando

    Este livro já estava na minha ( enorme ) lista de desejos, depois desta excelente resenha, entrevista e trechos selecionados preciso providenciar a compra o mais rapido possivel.

    Parabéns por mais uma fantastica resenha!

    O livro parece ser uma exceção em meio a tantos romances mornos e ficções realistas e previsiveis.

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *