A amiga genial – Elena Ferrante

A amiga genial – Elena Ferrante

Três autoras italianas estão entre os destaques de 2015. Juncos ao vento, um dos trabalhos mais importantes de Grazia Deledda, ganha nova tradução e edição de luxo pela Carambaia. Já a Cosac Naify resgata As pequenas virtudes, coletânea de textos da siciliana Natalia Ginzburg. A mais atual entre elas, Elena Ferrante, assina a tetralogia que deve sair integralmente pela Biblioteca Azul. Impossível ignorar sua publicação. A amiga genial, o primeiro volume da chamada “Série Napolitana”, tem rendido boas discussões desde seu lançamento. Não se pode determinar até que ponto a trama é, como a própria autora sugere, autobiográfica. Elena Ferrante é um pseudônimo. Tudo o que se sabe é que nasceu em Nápoles.

Elena concordou em dar algumas entrevistas, ainda que (é óbvio) não tenha confessado grande coisa a seu respeito. Nas conversas com os jornalistas, fala sobretudo do processo criativo e da ideia de autoria. O quanto a consideração com a imprensa contribui para promover a tetralogia, o que ela jura que não faz e não fará, é difícil saber. Não se pode negar que o desejo de ver revelada a identidade da escritora — que ela, com ou sem intenção, torna a alimentar sempre que concorda em responder a algumas perguntas, por mais inofensivas que pareçam — estimula o interesse pelos livros. A julgar por algumas de suas respostas, Elena discorda. A escritora acredita, como já repetiu inúmeras vezes, que aquilo que fascina seus leitores são os próprios romances. Não está de todo enganada. Se conquistaram uma legião de leitores, os méritos da série também renderam elogios da crítica internacional. No fim das contas, é irônico que a persona do autor, justamente quando permanece fora do alcance do público, reclame um espaço no centro do palco.

Apropriadamente, uma série cuja autora optou pelo anonimato começa com uma espécie de fuga estratégica. Rafaella Cerullo, conhecida desde criança como Lila, encontrou uma maneira de partir sem deixar rastros. Para onde quer que tenha ido, levou todos os seus pertences — recortou até mesmo as fotos em que aparecia. Quando Elena Greco, a narradora do livro, é alertada do sumiço da melhor amiga, observa que Lila quis “não só desaparecer, mas também apagar toda a vida”. Por alguma razão, a situação desperta a raiva de Elena. E é a raiva, mais do que a nostalgia ou o desespero, o gatilho do relato que se segue.

Neste primeiro volume da série, Elena Greco revisita suas lembranças da infância e da adolescência passadas ao lado de Lila. Ao fazê-lo, contraria abertamente o desejo da amiga de dissipar-se. Não parece fazer diferença para Elena. Seu interesse imediato é sublinhar que Lila existiu e que a influenciou. Que é e foi importante, e não será esquecida.

Desde pequena, demonstrando uma coragem incomum, Lila “rompia equilíbrios somente para ver de que outro modo poderia recompô-los”. No cenário descrito por Ferrante, o equilíbrio era precário — se quebrá-lo era fácil, tampouco era uma ação sem maiores consequências. As garotas intuíam, com razão, uma tensão permanente naquele bairro napolitano do pós-guerra. Havia “sentimentos represados sempre a ponto de explodir”, segundo Elena — daí a importância, e também a imprudência, da audácia de Lila. “Vivíamos em um mundo em que crianças e adultos frequentemente se feriam”, observa a narradora. A violência física era não só um método pedagógico como uma maneira de resolver conflitos. De certa forma, ainda que assumisse contornos próprios, a lógica da famosa vendetta não havia sido abolida.

Ferrante é clara a respeito do que significava ser uma jovem mulher em um bairro pobre da Nápoles dos anos 1950. Enquanto Elena tem a chance de prosseguir com os estudos até o ginásio e o liceu, Lila é impedida de fazer o mesmo. Naquele tempo e lugar, uma garota que recebesse uma instrução como a da narradora era considerada a exceção, não a regra. (Na verdade, os próprios homens de condição social semelhante dificilmente tinham a chance de virar outra coisa que não aprendizes do ofício dos pais.) A própria Grazia Deledda, a italiana vencedora do Nobel de Literatura cujos romances Elena lê com frequência, pôde apenas assistir a algumas aulas particulares depois do fim do ensino básico reservado às meninas. As lições extras, porém, que aproximaram Grazia de seu objetivo de tornar-se uma escritora reconhecida, não estavam ao alcance de todas. Se quisessem evitar um confronto com os familiares, as mulheres deveriam, depois de aprender e exercitar as tarefas do lar, aguardar pacientemente uma boa proposta de casamento.

É (talvez) uma desproporção mínima no nível de instrução de seus pais, ou mesmo na percepção e adequação aos novos tempos, que faz com que as garotas sigam direções praticamente opostas. A disparidade não se estende ao poder aquisitivo das famílias, bastante similar — tanto Elena quanto Lila traçam, na infância e na adolescência, planos para escapar da pobreza. No bairro, porém, é possível observar uma desigualdade social mais ampla. E é em parte o dinheiro que gere as relações do lugar, garantindo a influência ou o controle dos que têm mais sobre os que têm menos. Não à toa, os personagens de A amiga genial são definidos, ainda no início, tanto pelo sobrenome que carregam quanto pela função que exercem. O sapateiro. O contínuo. O marceneiro.

A barreira imposta aos estudos de Lila parece mais cruel na medida em que sua inteligência (tanto quanto sua personalidade combativa) mostra-se muito superior à dos outros garotos e garotas. Desde criança, Elena se esforça para alcançar um desempenho que Lila atinge naturalmente. Sua capacidade de raciocínio é assombrosa. Quando os caminhos das duas se separam, os livros que Lila retira na biblioteca da escola regular permitem que ela siga no encalço de Elena, estudando latim e grego por conta própria.

Os livros, aliás, são elementos importantes desde o começo de sua amizade. Na infância, é marcante a passagem em que as garotas, logo depois de deixarem as bonecas, descobrem juntas a literatura. Além de Coração, clássico juvenil de Edmondo de Amicis, Elena e Lila leem e releem Mulherzinhas, de Louisa May Alcott. Graças a esse último, desejam escrever um romance algum dia. De Lila, o sonho vai ficando mais distante — para sempre uma espécie de fantasia infantil. De Elena, mais próximo.

Nesse vai e vem, suas vidas parecem uma gangorra. “Era como se, por uma magia malévola, a alegria ou a dor de uma implicasse a dor ou a alegria da outra”, escreve Elena. O que uma conquista ou atinge, a outra deseja. Mesmo com tanto espaço para a inveja — inevitável naquele contexto —, o afeto e a solidariedade entre as duas é evidente. Lila, generosa, torce por Elena. “Você é minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres”, diz, na frase mais dolorosa de todo o livro. Elena, que identifica o potencial ilimitado da amiga, não sabe bem como acomodar seu desânimo quando suas vidas tomam rumos diferentes. O que se percebe é sua confusão, causada, em parte, pelos contratempos do processo de amadurecimento — pela necessidade de definir e encontrar a si mesma, um indivíduo diferente de Lila.

De todas as qualidades de Lila que Elena, por afeto e reconhecimento, desejaria possuir, a principal é sua capacidade de se expressar por escrito. Nesse sentido, A amiga genial não deixa de ser uma parábola ardilosa sobre a influência. Quanto de Lila — de seu discernimento, de seus interesses, de suas ideias — há na prosa de Elena? Entre o manifesto e o oculto, talvez a própria Elena não tenha certeza. E é a sutileza com que Ferrante assinala o jogo de interferências o maior trunfo do livro, talvez da série.

“Saberia dar vida a um objeto, deixá-lo retorcer-se em uníssono com a minha?”, pergunta Elena, que deseja imitar o estilo de uma carta de Lila que acaba de receber. Em seguida, consciente ou inconscientemente, ela — décadas depois de ler as palavras de Lila na carta — descreve o ambiente ao seu redor em consonância com o próprio humor: “As panelas brilhavam, a mesa rangia, o teto pesava do alto, o ar noturno e o mar premiam dos lados”. Por fim, Elena diz se sentir “humilhada pela capacidade de escrita de Lila”. Ela admite que falhou em sua tentativa de imitar o estilo da amiga ou nem se deu conta de que acabou de fazê-lo?

Ao escrever, Elena quer se “libertar dos tons artificiosos, das frases muito rígidas”; quer “experimentar uma escrita fluida e envolvente como a de Lila”. Em dado momento, quando de fato alcança o resultado que vinha buscando, fica feliz ao descobrir nele não a maneira de escrever de Lila, a voz de Lila, mas a sua. É significativo que Lila, em uma cena posterior, faça correções no texto de que Elena tanto se orgulha — e que via como seu. Nada disso é gratuito.

A narradora menciona frequentemente “a língua de hoje” ou “as palavras de hoje”, ressaltando o tempo transcorrido entre o momento presente e os eventos narrados. Haverá, ainda, alguma interferência de Lila? Certamente.

Apesar de escrever em algum ponto da maturidade, não se sabe, neste primeiro livro, como a vida de ambas se desenrolou. Sabe-se que se casaram e tiveram filhos, e que Elena vive em Turim e Lila (antes de desaparecer) continua morando em Nápoles. Mais do que isso, é preciso esperar pelos próximos volumes. A expectativa é grande.

15 Comentários A amiga genial – Elena Ferrante

  1. Renato Dowsley

    Vim agradecer, Camila.
    Porque já havia pensado em ler ‘A amiga genial’ algumas vezes, mas todas as vezes o colocava de volta na prateleira. Semana passada li sua resenha.
    Hoje terminei o livro e estou mais do que fascinado pela Itália de Ferrante. Incrível, incrível.
    Você sabe se o segundo volume já tem previsão para ser lançado pela Biblioteca?

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  2. Fernanda

    Oi Camila, boa noite!
    Descobri aqui tentando achar a “sequencia” de “a amiga genial”.
    E tbem pra ter certeza se o livro acaba na página 331. Eh isso mesmo? Rs

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  3. Yara Pierangeli C Fonseca

    Livro incrível, despretensioso no inicio, mas, apaixonante, acaba nos envolvendo de tal maneira que ficamos com gostinho quero mais, retrato muito bem feito de uma época, adorei.

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  4. andrea

    oi, camila, li a tetralogia inteira. as duas primeiras edições brasileiras e as duas últimas edições portuguesas.
    os quatro livros são um único livro.
    li um atrás do outro porque eu sou dessas que só vê série depois que já acabou. daí faço o caminho direto, sem paradas.
    foi uma das leituras mais incríveis. as duas personagens são apaixonantes.
    ainda não me distanciei dos livros. estão à mão e ora ou outra releio trechos.
    fiquei emocionada com fechei a história da menina perdida.

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  5. Pingback: Alguns pontos do segundo livro da tetralogia de Elena Ferrante que merecem destaque | Livros abertos

  6. marisa schmidt

    Totalmente apaixonada pelo livro, fui atrás de sua sequência e encontrei. O segundo livro chama-se ” A História do Outro Sobrenome” e já chegou ao Brasil. Comprei e aguardo ansiosamente o seu envio…

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  7. Pamella Almeida

    Excelente resenha, Camila! Li a Ferrante despretensiosamente seduzida pelo furor em torno da autora por causa de seu pseudônimo e fui surpreendida pela narrativa mega envolvente de Elena, pela relação de duas crianças, pela análise posterior dessa amizade, mas principalmente pelas questões sociais em torno do romance, a ascensão possível pelo estudo é tão bem construída… claro que devorei os outros dois. Ferrante é uma das melhores autoras que li nos últimos tempos, quero ler até a lista de compras dela!

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    1. Camila von Holdefer

      Também acho que as questões sociais são o melhor do livro. Por isso adorei o terceiro: porque ela aprofunda, muda o tom, fica mais adulta (mais próxima da narradora idosa que é) e mais capaz de falado sobre esses assuntos. Achei o melhor dos três. 🙂 Gracias pelo comentário!

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